#FLIP2011: As tempestades cerebrais de Miguel Nicolelis

Do Blog do Chico Bicudo:

O encontro foi casual, perto da hora do almoço, quando o céu se tornava um pouco menos cinzento e um sol ainda muito tímido tentava se impor no horizonte de Paraty (seria rapidamente vencido pelas nuvens). Depois de algumas andanças pela cidade e dos acertos para a programação infantil da tarde, decidimos conhecer o espaço cultural da editora Companhia das Letras especialmente montado para a Festa Literária Internacional de Paraty. Miguel Nicolelis estava distante uns dez passos da entrada, em pé, braços cruzados, conversando animadamente. Feitas as devidas apresentações (havíamos apenas nos falado por e-mail e redes sociais), arrisquei um comentário. “Puxa, professor, sua fala hoje vai acontecer justamente na hora do jogo do Palmeiras contra o América de Minas…”. Nicolelis, palestrino fanático, daqueles de não perder jogo no campo quando está em São Paulo e de narrar partidas pelo twitter quando está fora do país, concordou, em tom de brincadeira: “é mesmo um crime!”. Elisa, minha esposa-companheira, aproveitou a deixa. “Você vai usar a camisa do Palmeiras à noite, na palestra?”. Nicolelis disse que de fato a camisa alviverde estava na mala. Mas ainda não havia decidido se a usaria oficialmente, em cerimônia tão solene.

Pouco mais de seis horas depois, às 19h43 (no meu relógio), mais precisamente, Miguel Nicolelis subiu ao palco principal da FLIP para participar da mesa 4, que discutiu o tema “O humano além do humano”, contou também com a exposição do filósofo Luiz Felipe Pondé e teve a mediação da jornalista Laura Greenhalgh, de O Estado de São Paulo. Não estava com a camisa do Palmeiras, é verdade. Mas, arrisco dizer que não casualmente, vestia um agasalho de moletom verde. As tendas dos autores e do telão estavam completamente lotadas – e, nas laterais, para além das grades de proteção, cadeiras que originalmente pertenciam a barracas da praia se transformaram em assentos extras para aqueles que não tinham conseguido ingressos, mas que ficaram muito bem posicionados naquelas arquibancadas improvisadas, todos com ouvidos e olhares atentos para um dos vinte mais importantes cientistas do mundo, candidatíssimo a Prêmio Nobel de medicina e autor do recém-lançado “Muito além do nosso eu”, que já desponta nas listas de mais vendidos do país.

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