Até os EUA sabem que a Veja forja matérias

Quem ainda acredita em Veja?  Daqui a pouco, desde que o querido do Milenium se mudou para a Época, ninguém acreditará na revista da editora Globo também.


Do Opera Mundi

No dia 16 de março de 2005, a revista semanal Veja publicou a matéria “Os Tentáculos das FARC no Brasil”, em que detalhava uma possível relação entre membros do PT (Partido dos Trabalhadores) com a guerrilha colombiana. O caso, porém, foi relatado pela embaixada dos Estados Unidos em Brasília como um exagero, além de uma tentativa de “manobra política”. O documento da embaixada com o relato foi divulgado pelo Wikileaks.


Segundo a matéria, candidatos petistas teriam recebido 5 milhões de dólares da guerrilha durante uma reunião no ano de 2002, em uma fazenda próxima a Brasília. Na ocasião, membros do PT teriam se encontrado com o representante da organização colombiana no país, Francisco Antonio Cadenas, e acertado os detalhes. O objetivo seria financiar a campanha de reeleição do ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).
O partido, porém, negou as acusações e a Veja não conseguiu provas documentais sobre a transferência de dinheiro.

Para embaixada norte-americana, a revista “exagerou o real nível das relações entre as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o PT”, segundo o documento datado de março de 2005. Isso porque, após as acusações, membros da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) em Brasília, que de acordo com a revista, estavam infiltrados no encontro, não obtiveram provas concretas sobre o recebimento de dinheiro.

Citado pela embaixada norte-americana, o general Jorge Armando Felix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Abin e que acompanhou a investigação, afirmou que os documentos internos da agência citados pela Veja como provas foram “forjados”, já que não estavam nas formatações da agência.

“O que foi publicado é uma mistura de meias verdades e meias mentiras. Nós não temos qualquer documento oficial que prove que o encontro ocorreu”, afirmou o delegado e chefe da Abin, Mauro Marcelo, também citado no despacho.
No documento, fica explícito o estranhamento do embaixador norte-americano em relação a demora de três anos para divulgação do possível financiamento. “A história mais parece uma manobra política. O que é incontestável é que os membros do PT e representantes das FARC estiveram juntos em um encontro, mas não há provas de colaboração financeira”, disse.

Para ele, o que deveria ser uma denúncia importante tornou-se uma ferramenta arquitetada pela Veja para minar a candidatura de Lula ao segundo mandato. “Enquanto os opositores e a outros veículos de comunicação estão notavelmente desinteressados em prosseguir com as acusações e investigações, parece que a Veja está exagerando os fatos”, conclui o embaixador.

Amorim: a pedra no meio do caminho

Por Marina Amaral e Natalia Viana
No site da Pública 

Os documentos vazados pelo Wikileaks revelam como o serviço diplomático americano elaborou uma estratégia para (não) lidar com o ex-chanceler e hoje ministro da Defesa Celso Amorim, que chamavam de “esquerdista” . Ao mesmo tempo, a diplomacia dos EUA tinha Nelson Jobim como fonte e recebia apoio de integrantes do governo e das forças militares.


Aos olhos do serviço diplomático americano, em especial durante a era George W. Bush (2001-2009), a posição mais independente do Ministério das Relações Exteriores (MRE) capitaneado por Celso Amorim parecia uma constante provocação.
Nos telegramas vazados pelo parceiro da Pública, o WikiLeaks, o MRE é visto “com inclinações antiamericanas” que impedem a melhoria das relações com o governo brasileiro e que tem, além de um “acadêmico esquerdista” (Marco Aurélio Garcia) que aconselha o presidente Lula, um ministro “nacionalista” (Celso Amorim) e um secretário-geral “antiamericano virulento” (Samuel Pinheiro Guimarães).
“Manter a relação político-militar com o Brasil requer atenção permanente e, talvez, mais esforço do que qualquer outra relação bilateral no hemisfério”, desabafava em novembro de 2004, o embaixador do partido republicano John Danilovich, um dos dois diplomatas que receberam a embaixada em Brasília como “recompensa” por levantar centenas de milhares de dólares para a campanha presidencial de Bush.
Foi ele que, numa reunião em março de 2005, tentou catequizar Celso Amorim sobre a ameaça “cada vez maior” que a Venezuela representava a toda a América do Sul. A resposta foi “clara” e “seca” na descrição do americano. “Nós não vemos Chávez como uma ameaça”, respondeu Amorim. “Não queremos fazer nada que prejudique nossa relação com ele”, afirmou. O embaixador finaliza o documento em tom desapontado: o Itamaraty não “comprou” a ideia americana.

Sobel, o sucessor

Sai Danilovich entra Clifford Sobel, também republicano e ligado aos Bush. Sobel soube escolher melhor de quem se aproximar: do então ministro da Defesa, Nelson Jobim, que virou interlocutor contumaz do embaixador, a ponto de confidenciar sua irritação com o MRE – compartilhada pelos EUA – em especial com o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães.
Jobim tornou-se peça vital em uma estratégia diplomática americana que explorava a divisão dentro do governo em benefício próprio. Em fevereiro de 2009, com Barack Obama presidente dos Estados Unidos, Sobel enviou uma série de três telegramas com o significativo título de “Compreendendo o Ministério de Relações Exteriores do Brasil”.
Neles, pensava uma estratégia para contornar o triunvirato “esquerdista” que já incomodava os planos do seu antecessor. “Juntos com o presidente Lula, eles (Amorim, Guimarães e Garcia) têm puxado o MRE para direções inabituais e, às vezes, diferentes entre si”, pontua Sobel.
“Enquanto tentamos aprofundar nossas relações, a dinâmica ideológica faz com que o Itamaraty seja, às vezes, um parceiro frustrante”, assinala o embaixador, esperançoso com a aposentadoria próxima de Pinheiro Guimarães e com a possibilidade de influenciar os diplomatas mais jovens que ocupariam os futuros postos de comando.
O primeiro telegrama ainda trata da proximidade entre Amorim, “um esquerdista mais afeito às delicadezas diplomáticas”, e Guimarães “adepto de posições radicais como a de que o Brasil precisa de armas nucleares para se impor no cenário internacional”.
A indicação de Amorim para o cargo teria sido obra de Pinheiro Guimarães, ao contrário do que sugeriam suas posições hierárquicas. “Um diplomata aposentado contou a nossos conselheiros políticos que a influência e independência de Guimarães deve-se ao fato de ter sido o primeiro escolhido pelo PT para o MRE. Como ele achava que seu nome não seria aprovado pelo Congresso, indicou Amorim para o cargo e escolheu para si o posto de secretário-geral. Além de ligações familiares, a filha de Guimarães é casada com o filho de Amorim. Essa história explica sua autoridade desmedida e substancial autonomia”, fofocou o embaixador.

Escanteando o Itamaraty

O certo é que Sobel via o MRE como “um desafio” para os EUA. O jeito, sugeriu, seria fazer aliança com os setores privados, que têm “habilidade para conseguir aprovar iniciativas junto ao governo”, além de tentar uma aproximação direta com o presidente Lula e outros ministros que poderiam defender a causa americana.
Essa é uma “estratégia testada”, afirma Sobel, citando entre outros exemplos o caso da transferência dos agentes da Drug Enforcement Administration (DEA), a agência americana de combate às drogas, que foram expulsos da Bolívia no final de 2008.
As conversas com setores do governo brasileiro começaram em seguida do presidente boliviano Evo Morales expulsar cerca de 30 oficiais da agência, que centralizava a guerra contra as drogas, acusando-os de espionagem.
A DEA, de fato, faz parte do aparato de inteligência americano. Para realocá-los, Sobel evitou o caminho protocolar, que seria dialogar com Virginia Toniatti, diretora de crimes transnacionais do Itamaraty (COCIT), figura “geralmente resistente à cooperação com os EUA”.
Um relatório escrito pela conselheira da embaixada dos EUA, Lisa Kubiske, no final de dezembro de 2008, conta que Sobel discutiu o aumento do pessoal da DEA com Tarso Genro, então Ministro da Justiça e com o Ministro-chefe de Segurança Institucional, general Jorge Félix, além de debater de maneira “extensiva” com a Polícia Federal, que apoiou “completamente” a transferência.
“A embaixada evitou propositalmente pedir permissão formal para aumentar (o número) de escritórios (da DEA), já que (um pedido) não é estritamente necessário para aumentar a equipe em escritórios já existentes, e somente o MRE poderia garantir isso”, escreve Kubiske.
Isso porque esse tipo de requerimento teria que passar por uma nota diplomática por meio da diretora de crimes transacionais e, de novo, pelo secretário-geral do MRE e “ambos provavelmente atrasariam o pedido”.
Sobel explica que o Itamaraty, ao saber da estratégia, tentou evitar a vinda dos presumidos espiões da DEA. “Apesar da recusa do MRE de conceder vistos aos agentes americanos, conseguimos realizar a transferência com a ajuda da Polícia Federal, da Presidência da República e de nossas excelentes relações com o Ministro da Justiça”, explica, orgulhoso do feito. Segundo ele, a transferência também teve o apoio do governo boliviano.

De olho nos novatos
O segundo dos três telegramas da série sobre o MRE é dedicado à falta de recursos humanos e financeiros do Itamaraty que, diante do crescimento do papel internacional do Brasil, se expandiu entre 2003 e 2009, com a abertura, por exemplo, de 44 novas unidades administrativas em Brasília e 17 novas embaixadas brasileiras na África.
Para a diplomacia dos EUA o emprego de “trainees e terceiros-secretários” sem condições de acompanhar os movimentos de Lula no cenário internacional era vista com bons olhos.
“É crucial influenciar essa nova geração de diplomatas que, embora nacionalistas, estão mais abertos a considerar que a cooperação entre EUA e Brasil pode coincidir com os interesses de seu país”, assinala o embaixador.
“Os franceses instituíram um programa de intercâmbio diplomático com o Itamaraty em 2008, semelhante ao nosso Transatlantic Diplomatic Fellowship. Acreditamos que uma proposta similar seria válida tanto para conseguir um posto que nos permita observar de dentro o funcionamento desse ministério-chave, como para fazer os diplomatas brasileiros entenderem como os EUA executam sua política externa”.
Seguindo a estratégia de contornar Amorim, o terceiro telegrama trata da “concorrência entre agências do governo”. De acordo com a análise de Sobel, embora o MRE continuasse a ser o líder da política externa brasileira, o crescimento internacional do país tendia a erodir seu controle à medida que os temas se expandissem.
A oportunidade americana seria facilitada diante da falta de hábito das instituições brasileiras em lidar diretamente com governos estrangeiros. “Muitos ministros se autocensuram, impedindo-se de estabelecer relações com outros governos sem a luz verde do Itamaraty”, lamenta, citando como exemplo o Ministério do Trabalho e a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.
No entanto, alguns ministérios como o do Meio-Ambiente (à época chefiado por Carlos Minc) e, principalmente, o da Defesa “estabeleceram relações diretas” com a embaixada brasileira, comenta Sobel.
Um telegrama enviado em 31 de março de 2009, depois da visita do presidente Obama ao Brasil, dá um exemplo prático. Pedindo sigilo absoluto de fonte, o embaixador conta que Jobim estava ciente da oferta de Lula a Obama de buscar caminhos para contribuir com o combate ao narcotráfico na região, possivelmente por meio do Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS) criado em dezembro de 2008 pela União Sul-Americana de Nações (UNASUL).
“Ele disse que o CDS poderia ser o canal perfeito para conseguir o engajamento dos militares dos outros países diretamente com a presidência do Brasil (sem passar pelo MRE) e que planejava falar com o presidente nas próximas semanas”, escreve Sobel.
Jobim também informou a disposição em envolver os militares na luta contra o tráfico de drogas nas fronteiras brasileiras. E contou que o presidente Lula teria lhe pedido que fosse ao México, a pedido do presidente Calderón, para discutir a colaboração entre os governos nesse tema.
“O Brasil hesita em empregar os militares no combate ao narcotráfico tanto por sua história como pela possibilidade de corrupção. O plano de Jobim sinaliza um grande passo, uma vez que o assunto é altamente sensível internamente, no governo, e para o público brasileiro. A intenção de Jobim de trabalhar sem o Ministério das Relações Exteriores traz uma susceptibilidade burocrática adicional a complicada tarefa de conquistar o apoio das outras nações da América do Sul”, comenta Sobel
A compra dos caças

Tudo indica que no episódio das tratativas frustradas de compra dos caças F-X, Jobim e os líderes militares agiram também bem longe dos olhos do Itamaraty.
Os informes diplomáticos sobre a negociação se iniciam em 2004 e estão entre os mais reveladores e numerosos – cerca de 50 telegramas. A comparação entre o que dizem os representantes brasileiros em público e o que cochicham em particular é gritante.
A exceção, nesse caso, foi Amorim, que se posicionou abertamente pela compra dos caças Rafale, da França, tanto pela garantia de transferência de tecnologia feita pelo presidente Nicolas Sarkozy como pelo interesse estratégico na aliança com àquele país o que, para Sobel, se configura como disposição para “desafiar os americanos”.
Jobim, por sua vez, se comportava de maneira dúbia e confundia a diplomacia estrangeira. Em um telegrama intitulado “Brasil e França: amor verdadeiro ou casamento de conveniência”, o embaixador relata a visita da comitiva presidencial à França e à Rússia cujos objetivos “cada vez com mais detalhes” haviam sido confidenciados por Jobim antes da viagem.
“O encontro entre os presidentes Lula e Sarkozy e a visita do ministro Jobim à França desencadearam uma onda de francofilia na política externa brasileira, particularmente em relação a uma parceria estratégica”, escreve Sobel em maio de 2008. “Talvez seja mais um ‘marriage blanc’ do que ‘amour veritable’”. Numa tradução livre, um “casamento de fachada e não amor verdadeiro”.
Sobel continua: “Nos encontros privados, Jobim minimizou a relação com a França e manifestou um claro desejo de ter acesso à tecnologia americana. O obstáculo é a resistência do MRE. Ele diz que o governo brasileiro acha a aliança com a França mais conveniente politicamente e considera que o país tem mais a ganhar com a tecnologia americana”.
Em um telegrama de janeiro de 2009, pouco depois da eleição de Obama, Sobel conta ter sido convidado a ir à casa do então ministro da Defesa para um encontro privado. Jobim teria dito que as relações de defesa entre Brasil e França prosperaram por causa da relação pessoal entre os presidentes Sarkozy e Lula, mas que o presidente brasileiro estaria interessado em conversar sobre assuntos estratégicos com o novo governo americano.
Disse ainda que “Jobim acrescentou que Lula ‘usa’ o ministro Amorim, mas não tem uma relação forte com ele, e que o presidente não gosta de Samuel Pinheiro Guimarães”.
Sobel também se reuniu diversas vezes com os comandantes das Forças Armadas para pedir “conselhos” e ouvir sua opinião sobre as chances dos caças da Boeing vencerem a concorrência de quase 10 bilhões de reais. “Os apoiadores mais fortes do Super Hornet (o F-18 americano) são as lideranças militares, em particular o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, que considera a oferta da Boeing o melhor negócio e vê as Forças Armadas americanas como a melhor escolha para uma parceria com o seu país”, escreve em telegrama de janeiro de 2009.
Durante um jantar oferecido ao comandante americano Doug Fraser, em julho do mesmo ano, o brigadeiro Saito teria puxado Sobel e seu conselheiro político de lado para discutir a aquisição dos caças. “Ele disse que não havia dúvida do ponto de vista técnico sobre a superioridade do F-18: ‘Há décadas voamos em equipamentos americanos e sabemos o quanto eles são bons e fáceis de manter’”.
Saito então pediu que o governo americano enviasse uma carta ao governo brasileiro se comprometendo a transferir tecnologia além de reiterar a importância da aproximação de Lula e Obama para o negócio.
Em outro telegrama, o embaixador conta ter obtido “uma cópia não oficial” de uma Requisição de Informações da Aeronáutica (passada eletronicamente para Washington) que “permite planejar os próximos passos para os EUA vencerem a negociação”.
Além de classificar o F-18 como uma aeronave testada em combate “com incomparável segurança e durabilidade”, e de garantir que o preço não seria o principal critério da escolha da Aeronáutica, a informação mais importante obtida pelo documento é de que a Embraer, “principal beneficiária de qualquer transferência de tecnologia”, consideraria “desejável a oportunidade de estabelecer uma parceria com a Boeing”, principalmente se a companhia americana “tivesse a intenção de oferecer uma cooperação adicional na área da aviação comercial”.
Se os telegramas tivessem vazado anteriormente, seria embaraçoso para a Aeronáutica sustentar o relatório apresentado em janeiro de 2010 pela Força Área Brasileira (FAB) ao ministro Jobim que colocava o caça sueco em primeiro lugar na preferência, exatamente por causa do preço e custo de manutenção.
Naquele momento, o documento foi interpretado pela imprensa brasileira como uma “derrota” do governo, nitidamente favorável ao caça francês, classificado em terceiro lugar, atrás dos americanos.
O relatório teria sido modificado dias depois por “pressão do Planalto”, de acordo com a imprensa, para melhorar a posição do caça francês, afirmando que, apesar dos suecos serem mais baratos, o Rafale e o F-18 têm tecnologia superior.

Haiti, exceção a regra

Pouco depois do lançamento dos documentos do WikiLeaks, Amorim minimizou as revelações, dizendo que “ou são irrelevantes, ou eu já sabia, ou tem um valor às vezes de fofoca”.
Quanto às críticas ao Itamaraty, disse que a instituição sempre foi vista com reservas pelos diplomatas estrangeiros, por ser “a primeira linha de defesa da soberania”. “Eles não gostam de tratar diretamente com o Itamaraty. Não são só os americanos, não. É qualquer diplomata estrangeiro”.
Durante sua gestão, no entanto, a exceção a regra que aproximou o Itamaraty dos EUA foi o Haiti. Amorim foi favorável ao envio das tropas brasileiras – e da subsecretária para assuntos políticos do Itamaraty, Vera Pedrosa, que ajudou a assegurar à embaixada americana que o Brasil iria agir, mesmo que tivesse que “dar um jeitinho”.
Segundo um telegrama de março de 2004, Vera explicou que tradicionalmente a interpretação é de que a Constituição brasileira só permite enviar tropas em casos previstos no capítulo VI do Estatuto da ONU, ou seja, em operações de manutenção de paz – enquanto o caso do Haiti se encaixava no capítulo VII, que significa uma missão de imposição de paz. Por conta do grande interesse político do governo brasileiro em participar, Vera teria dito que a situação é “manejável”.
Um ano depois, outro comunicado diplomático indica que Amorim insistiu, pessoalmente, junto a Danilovich, para que os EUA enviassem verbas para projetos humanitários que deveriam se seguir aos ataques “robustos” da Minustah (a força de paz da ONU) contra as gangues na capital do país.
Amorim teria dito ser necessário “contrabalancear reações negativas com uma mensagem forte que focasse na assistência e estabilidade que a Minustah e a comunidade internacional estão tentando trazer ao Haiti”.
Sob forte pressão americana, que chegou a pedir a cabeça do comandante das tropas brasileiras, Augusto Heleno Pereira, o Brasil engajava-se cada vez mais em ações contra rebeldes e gangues haitianas.
Em março de 2007,  em reunião com o  sub-secretário de Estado norteamericano William Burns, Amotim teria dito que o Barsil estava no Haiti em um “compromisso de longo prazo” e que “a experiência no Haiti tem sido um exemplo positivo de cooperação Brasil-EUA, apesar dos dois governos terem divergido em alguns aspectos específicos da missão”.
Depois do terremoto que devastou o Haiti, em janeiro de 2010, o ex-chanceler reclamou da presença de milhares de marines americanos, enviados para conter a situação de emergência. “A Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), liderada pelo Brasil, deve ser a única força estrangeira no país caribenho, assim que for superada a crise”, disse em entrevista ao diário espanhol El País.
Agora, como o novo ministro da Defesa, Amorim parece ter mudado de opinião. No dia 1 de agosto deste ano, defendeu a retirada das tropas brasileiras do Haiti. “Claro que não pode ser uma saída irresponsável”, disse, “mas não faz sentido (permanecer)”. E repetiu o discurso, já como ministro, na sua primeira reunião com os comandantes das Forças Armadas.
Atualmente, 2.160 soldados brasileiros homens trabalham em segurança interna no Haiti, atingindo um custo total de 1 bilhão de reais desde 2004.
Se o ministro Amorim cumprir seu desígnio é provável que uma das suas primeiras ações no Ministério da Defesa entre em choque com os intentos do governo americano, que sempre insistiram na permanência da ONU. Uma estreia e tanto.

(texto editado por Thiago Domenici)

Documentos do Wikileaks comprovam que mídia brasileira serve aos EUA


Aconteceu o que já era de conhecimento dos menos desavisados. A grande imprensa brasileira foi finalmente desnudada, com tudo comprovado em documentos oficiais e sigilosos. Quem ainda tinha motivos para outorgar credibilidade à estes veículos e seus jornalistas, não tem mais. 

William Waack, da Globo, aparece nos documentos secretos

Novos documentos vazados pela organização WikiLeaks trazem à tona detalhes e provas da estreita relação do USA com o monopólio dos meios de comunicação no Brasil semicolonial. Um despacho diplomático de 2005, por exemplo, assinado pelo então cônsul de São Paulo, Patrick Dennis Duddy, narra o encontro em Porto Alegre do então embaixador John Danilovich com representantes do grupo RBS, descrito como “o maior grupo regional de comunicação da América Latina“, ligado às organizações Globo.

O encontro é descrito como “um almoço ‘off the record’ [cujo teor da conversa não pode ser divulgado], e uma nota complementar do despacho diz: “Nós temos tradicionalmente tido acesso e relações excelentes com o grupo”.

Outro despacho diplomático datado de 2005 descreve um encontro entre Danilovich e Abraham Goldstein, líder judeu de São Paulo, no qual a conversa girou em torno de uma campanha de imprensa pró-sionista no monopólio da imprensa no Brasil que antecedesse a Cúpula América do Sul-Países Árabes daquele ano, no que o jornalão O Estado de S.Paulo se prontificou a ajudar, prometendo uma cobertura “positiva” para Israel.

Os documentos revelados pelo WikiLeaks mostram ainda que nomes proeminentes do monopólio da imprensa são sistematicamente convocados por diplomatas ianques para lhes passar informações sobre a política partidária e o cenário econômico da semicolônia ou para ouvir recomendações.

Um deles é o jornalista William Waack, apresentador de telejornais e de programas de entrevistas das Organizações Globo. Os despachos diplomáticos enviados a Washington pelas representações consulares ianques no Brasil citam três encontros de Waack com emissários da administração do USA. O primeiro deles foi em abril de 2008 (junto com outros jornalistas) com o almirante Philip Cullom, que estava no Brasil para acompanhar exercícios conjuntos entre as marinhas do USA, do Brasil e da Argentina.

O segundo encontro aconteceu em 2009, quando Waack foi chamado para dar informações sobre as conformações das facções partidárias visando o processo eleitoral de 2010. O terceiro foi em 2010, com o atual embaixador ianque, Thomas Shannon, quando o jornalista novamente abasteceu os ianques com informações detalhadas sobre os então candidatos a gerente da semicolônia Brasil.

Outro nome proeminente muito requisitado pelos ianques é do jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, d’A Folha de S.Paulo. Os documentos revelados pelo WikiLeaks dão conta de quatro participações do jornalista (ou “ex-jornalista e consultor político”, como é descrito) em reuniões de brasileiros com representantes da administração ianque: um membro do Departamento de Estado, um senador, o cônsul-geral no Brasil e um secretário para assuntos do hemisfério ocidental. Na pauta, o repasse de informações sobre os partidos eleitoreiros no Brasil e sobre a exploração de petróleo na camada pré-sal.

Cai também a máscara de Fernando Rodrigues, da Folha

Fernando Rodrigues, repórter especial de política da Folha de S.Paulo, chegou a dar explicações aos ianques sobre o funcionamento do Tribunal de Contas da União.

Outro assunto que veio à tona com documentos revelados pelo WikiLeaks são os interesses do imperialismo ianque no estado brasileiro do Piauí.

Um documento datado de 2 de fevereiro de 2010 mostra que representantes do USA participaram de uma conferência organizada pelo governador do Piauí, Wellington Dias (PT), na capital Teresina, a fim de requisitar a implementação de obras de infra-estrutura que poderiam favorecer a exploração pelos monopólios ianques das imensas riquezas em matérias-primas do segundo estado mais pobre do Nordeste.

A representante do WikiLeaks no Brasil, a jornalista Natália Viana, adiantou que a organização divulgará em breve milhares de documentos inéditos da diplomacia ianque sobre o Brasil produzidos durante o gerenciamento Lula, incluindo alguns que desnudam a estreita relação do USA com o treinamento do aparato repressivo do velho Estado brasileiro. A ver.

Amorim e os EUA



De Marina Amaral e Natália Vianna,

Na Carta Capital

Aos olhos do serviço diplomático dos Estados Unidos, em especial durante a era Bush, a posição independente do Ministério das Relações Exteriores, capitaneado por Celso Amorim, hoje ministro da Defesa, parecia uma constante provocação. Nos telegramas vazados pelo WikiLeaks, o MRE é acusado de dificultar as relações bilaterais por suas “inclinações antiamericanas”, definidas por um ministro “nacionalista” e um secretário-geral “antiamericano virulento” (Samuel Pinheiro Guimarães), e secundado por um “acadêmico esquerdista” (Marco Aurélio Garcia), conselheiro de política externa do presidente Lula.

“Manter a relação político-militar com o Brasil requer atenção permanente e, talvez, mais esforço do que qualquer outra relação bilateral no hemisfério”, desabafava o embaixador John Danilovich, em novembro de 2004.

Foi ele que, numa reunião em março de 2005, tentou convencer Amorim da ameaça “cada vez maior” que a Venezuela representava à região. A resposta “clara” e “seca” do chanceler desapontou o americano: “Nós não vemos Chávez como uma ameaça. Não queremos fazer nada que prejudique nossa relação com ele”. E cortou o assunto.

Comércio: os EUA contavam com o apoio dos militares na licitação dos caças. Foto: Ben Stansall/AFP

O sucessor de Danilovich, Clifford Sobel, teve mais sorte. O ex-ministro da Defesa Nelson Jobim era interlocutor contumaz do embaixador, a ponto de confidenciar sua irritação com o MRE, em especial com Pinheiro Guimarães. Tornou-se peça vital em uma estratégia diplomática americana que explorava a divisão dentro do governo em proveito próprio, como revelam os telegramas.

Em fevereiro de 2009, já com Obama na Presidência dos Estados Unidos, Sobel enviou uma série de três informes, sugerindo formas de contornar o triunvirato “esquerdista” da política externa brasileira. O jeito, afirma, seria fazer aliança com o setor privado, que tem “habilidade para conseguir aprovar iniciativas junto ao governo” e tentar uma aproximação direta com Lula e outros ministros que poderiam defender a causa americana.

Uma “estratégia testada”, afirma Sobel, citando entre outros exemplos o caso da transferência para o Brasil dos 30 agentes da DEA, a agência americana de combate às drogas, expulsos da Bolívia por Evo Morales no fim de 2008. “Apesar da recusa do MRE de conceder vistos aos agentes, conseguimos realizar a transferência com a ajuda da Polícia Federal, da Presidência da República e de nossas excelentes relações com o ministro da Justiça (Tarso Genro)”, gaba-se.

O segundo telegrama foca os minguados recursos humanos e financeiros do Itamaraty, apresentando-os como oportunidade para os Estados Unidos. Muitos cargos diplomáticos estavam sendo preenchidos por “trainees e terceiros-secretários” por falta de pessoal para as novas embaixadas brasileiras, observa o embaixador americano, acrescentando que seria “crucial influenciar essa nova geração”.

“Os franceses instituíram um programa de intercâmbio diplomático com o Itamaraty em 2008, semelhante ao nosso Transatlantic Diplomatic Fellowship, e agora têm um diplomata trabalhando no Departamento Europeu do Itamaraty. Uma proposta similar seria válida para conseguir um posto que nos permita observar de dentro esse ministério-chave e mostrar como os Estados Unidos executam sua política externa”, sugere.

No terceiro telegrama, Sobel afirma que, embora o MRE continuasse a ser o líder incontestável da política externa brasileira, o crescimento internacional tendia a erodir seu controle. Apesar da falta de hábito das instituições brasileiras em lidar diretamente com governos estrangeiros, alguns ministérios como o do Meio Ambiente e, principalmente, o da Defesa estabeleceram relações diretas com a embaixada norte-americana em Brasília, relata.

Um telegrama enviado em 31 de março de 2009, depois da visita do presidente Obama ao Brasil, dá um exemplo prático da eficiência dessa estratégia. Pedindo sigilo absoluto de fonte, o embaixador conta que Jobim pretendia contribuir com o combate ao narcotráfico na região, possivelmente através do Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS) criado pela União Sul-Americana de Nações (Unasul). “Ele disse que o CDS poderia ser o canal perfeito para conseguir o engajamento dos militares dos outros países sem passar pelo MRE”, escreve, acrescentando que o então ministro da Defesa estaria disposto a envolver os militares no combate ao tráfico nas fronteiras brasileiras. “O plano de Jobim sinaliza um grande passo, uma vez que o assunto é altamente sensível internamente, no governo, e para o público brasileiro”, comenta.

Também durante as tratativas frustradas de compra dos caças, Jobim e os líderes militares agiram longe do Itamaraty, como mostram os cerca de 50 telegramas sobre o tema. Em um deles, Sobel relata a visita da comitiva presidencial à França e comenta, com ironia, as reportagens da imprensa brasileira que afirmam o apoio de Lula, Amorim e Jobim à aquisição dos caças Rafale: “Talvez isso seja mais um marriage blanc do que amour veritable”, diz. E explica: “Nos encontros privados com o embaixador, Jobim minimizou a relação com a França e manifestou um claro desejo de ter acesso à tecnologia americana. O obstáculo é o Ministério das Relações Exteriores”.

Sobel também se reuniu com os comandantes das Forças Armadas para pedir “conselhos” sobre as chances de os caças da Boeing vencerem a concorrência de quase 10 bilhões de reais. Ficou entusiasmado com o resultado: “Os apoiadores mais fortes do Super Hornet (o F-18 americano) são as lideranças militares, em particular o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito”, relata em telegrama de janeiro de 2009.

O embaixador também obteve “uma cópia não oficial” de uma Requisição de Informações da Aeronáutica (passada eletronicamente para Washington), que “permite planejar os próximos passos para os Estados Unidos vencerem a negociação”. Além de garantir que o preço não seria o principal critério da escolha, o documento informa que a Embraer, “principal beneficiária de qualquer transferência de tecnologia”, consideraria “desejável a oportunidade de estabelecer uma parceria com a Boeing”, principalmente se houvesse “a intenção de oferecer uma cooperação adicional na área da aviação comercial”.

À luz dos telegramas do WikiLeaks, o relatório apresentado em janeiro de 2010 pela FAB ao ministro Jobim, colocando a aeronave sueca como melhor opção, exatamente por causa dos custos, traz novas indagações. O Rafale francês foi classificado em terceiro lugar, atrás dos caças americanos, esse sim apontado como o de melhor tecnologia. Mas não era o preço que importava, não é?

#Wikileaks: Meu amigo #EjectJobim



Reportagem publicada em 30 de novembro de 2010, dois dias depois do vazamento dos documentos do WikiLeaks, mostrava proximidade de Nelson Jobim com embaixadores americanos, que o viam como forte aliado

O ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim, que acaba ser substituído pelo ex-chanceler Celso Amorim por decisão da presidente Dilma Rousseff, é velho conhecido da representação dos EUA em Brasília.
Segundo documentos publicados em 30 de novembro de 2010 pelo WikiLeaks, Jobim era um interlocutor frequente dos diplomatas americanos desde que tomou posse em 2007.
O ministro mantinha uma relação próxima com o antigo embaixador americano Clifford Sobel, que deixou o cargo no começo deste ano – a ponto de confidenciar sua irritação com o Ministério de Relações exteriores, em especial com o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães.
Jobim também teria contado que o presidente boliviano Evo Morales estaria sofrendo de um tumor. Sobel o considerava um ministro “atipicamente ativista” em prol da proximidade militar com os EUA.

A briga pelo acordo de defesa
Em abril do ano passado, o Brasil assinou um acordo de cooperação militar com os EUA que facilita a compra e venda de armamentos, a cooperação no desenvolvimento de tecnologia e a realização de exercícios militares conjuntos.
Os arquivos diplomáticos mostram a guerra silenciosa travada dentro do governo a respeito do acordo. De um lado, o Itamaraty; do outro, Jobim.
Em 17 de janeiro de 2008, durante um café-da-manhã com o embaixador Sobel, ele desabafou sobre suas desavenças com Samuel Pinheiro Guimarães.
Segundo o telegrama confidencial, Jobim disse que Guimarães causava “sérios problemas” não só para o acordo militar, mas nas relações entre os dois países.
“Ele odeia os Estados Unidos”, teria dito. Para ele, Guimarães estaria colocando entraves diplomáticos para evitar a visita de Jobim aos EUA, em março.
Jobim disse que preferia perder a batalha para ganhar a guerra, economizando capital político em vez de brigar na ocasião pelo acordo militar.
O embaixador conclui: “O presidente Lula deve ter um papel decisivo entre um ministro de Defesa atipicamente ativista, interessado em desenvolver relações mais próximas com os Estados Unidos, e um MRE firmemente comprometido em manter controle sobre todos os aspectos da política externa e manter a distância entre o Brasil e os EUA”.
Ministro forte
Sobel via Jobim com bons olhos, como mostra a análise preparatória enviada pela embaixada antes da visita de março de 2008.
Nele, diz que Jobim é “primeiro ministro da defesa forte no Brasil”, embora ainda penasse para lidar com as três forças, bastante autônomas. Além disso, durante a administração Lula, o foco em programas sociais teria “levado a uma redução do orçamento da defesa, gerando menos oportunidades de treinamento e compras de equipamento”.
A coisa estaria mudando com a busca do país pela liderança internacional, e aí entra a figura de Jobim como um ministro que busca fortemente acordos de cooperação militar.
Na época o Brasil tinha acabado de assinar um acordo militar bilateral com a França, com bastante empenho do ministro.
Em um contexto pós-mensalão, diz o documento, Jobim seria um dos “líderes mais confiáveis do Brasil”, com uma “reputação e integridade raras entre as lideranças brasileiras”.
O embaixador encerra o relatório ditando palavra por palavra o que o secretário de Defesa deveria dizer a Jobim: “Como você toma decisões importantes sobre a modernização do Brasil, tenha em mente que a parceria com os EUA pode ajudar os dois países a perceber nosso objetivo comum de preservar a estabilidade no hemisfério oeste”.
Jobim esteve na capital americana entre os dias 18 e 21 de março de 2008. A visita foi conturbada aos olhos do diplomata americano. Em especial, Sobel reclama da interferência do Itamaraty, que teria feito uma verdadeira campanha de boicote à viagem.
Sobel descreve em outro documento como o MRE – então comandado por Celso Amorim, atual ministro da Defesa – teria trabalhado para encurtar e esvaziar a visita.
“Enquanto Jobim dizia ao embaixador que queria uma programação completa, incluindo uma visita a Norfolk (onde há uma base aeronaval) e encontros com representantes da indústria de defesa americana, a embaixada em Washington dizia que a viagem teria que ser encurtada”, relala.
Ele avalia que “a atual administração de centro-esquerda tem evitado cuidadosamente uma cooperação próxima em assuntos policiais e militares importantes para nós e tem se mantido à distância na maioria dos assuntos relacionados à segurança”.
E menciona acordos de compartilhamento de informação e o polêmico Artigo 98, que “blinda” cidadãos americanos da possibilidade de extradição a pedido da Corte Penal Internacional.
“A dificuldade é mais aparente no MRE, que tem uma inclinação antiamericana e impede a melhora nas relações entre o Departamento de Defesa e o Ministério de Defesa brasileiro”.
Sobel vai mais longe ao comentar que a liderança do Brasil à frente da missão de paz da ONU no Haiti – apesar do pouco apoio nacional – se deve à “obsessão” do ministro de relações exteriores Celso Amorim em obter um assento no conselho se segurança da ONU.
Os EUA nunca expressaram apoio formal ao pleito brasileiro.
América do Sul
Em Washington, Jobim reforçou a intenção de uma parceria e da necessidade de modernizar as forças armadas, mas levando em conta primeiro o benefício da indústria nacional. Mas recusou a compra de caças F-35 Joint Strike Fighter, considerados caros demais. E criticou o governo americano por não permitir que o Brasil vendesse aviões de treinamento Super Tucanos à Venezuela.
Os caças, de fabricação brasileira, contêm partes americanas, e por isso desde 2006 o governo dos EUA proíbe a venda ao país vizinho. Segundo o telegrama, Jobim reclamou, dizendo que a recusa levou o presidente venezuelano a comprar caças russos.
O destaque ficou para a apresentação do projeto do Conselho de Defesa Sulamericano, uma aliança militar que inclui Brasil, Argentina, Bolívia, Colômbia, Chile, Equador, Guiana, Suriname, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.
Jobim teria dito que o Conselho é a melhor maneira de manter Hugo Chavez na linha, segundo outro telegrama.
Já Sobel achava a ideia de refrear Chávez através do Conselho “impraticável”, mas “ela segue a política tradicional brasileira de tentar ser amigo de todos”.
Vizinhos
Um tema que causou fricção entre o ministro brasileiro e os americanos foi o acordo militar com a Colômba. Segundo o relato de um encontro com a atual Ministra Conselheira da embaixada Lisa Kubiske em 9 de novembro de 2009, Jobim mal esconde sua irritação.
Em especial, ele reclama do vazamento de um memorando da Força Aérea americana na internet, citando “países não-amigáveis” na região como um dos motivos para o acordo militar.
“Isso mostra completa falta de entendimento sobre a América Latina”, esbravejou Jobim, que teria interferido junto a Lula para pedir “moderação” na resposta ao memorando. O ministro explicou que tanto o ex-presidente colombiano Uribe quanto Hugo Chávez usavam retórica beligerante para desviar as atenções de problemas domésticos.
Na conversa, ele teria defendido a atitude neutra do Brasil, adiantando que o governo ofereceria vigilância aérea para apaziguar as tensões na fronteira entre os dois países. Mas deixou no ar um dos pontos mais polêmicos.
Perguntado se acreditava que as Farc mantinham presença na Venezuela, respondeu que, se reconhecesse a presença, “isso arruinaria a habilidade do Brasil como mediador”.
Moralese seu “tumor”
Outro documento, de 22 de janeiro de 2009, traz um relato inusitado sobre outro país vizinho. Jobim teria ido até Sobel para relatar em primeira mão que o presidente boliviano Evo Morales estaria sofrendo de um tumor no nariz, o que teria sido revelado em uma reunião com Lula em La Paz. Lula teria oferecido tratamento em São Paulo.
Jobim disse que Morales estaria “desconcentrado” e “não estaria sendo ele memso”, por conta da doença. A história nunca saiu na imprensa. Morales fez uma cirurgia na época, supostamente por uma sinusite aguda.
Os documentos da embaixada de Brasília fazem parte de um conjunto de 3000 telegramas da representação americana no Brasil que terminaram de ser publicados pelo WikiLeaks no dia 11 de julho.

Greenhalgh: o insider da diplomacia americana

Da Pública:

Dentre os cerca de 3 mil documentos referentes ao Brasil publicados pelo WikiLeaks há muitos que não receberam  a atenção devida, mas são importantes para compreender a visão americana sobre o país na última década.
É o caso de três documentos que narram encontros de membros do corpo diplomático americano com Luiz Eduardo Greenhalgh, que já foi deputado federal, vice-presidente da secretaria de relações internacionais do PT e vice-prefeito de São Paulo.
Greenhalgh teria recebido três representantes do consulado em São Paulo para um café da manhã em seu apartamento em abril de 2006 e mantido pelo menos mais um encontro em 2007, no qual foi visto pelos diplomatas como um “informante”, tradução livre para o termo “insider”, em inglês.

Procurado pela Pública, Greenhalgh, hoje de volta a seu escritório de advocacia, negou ter mantido reuniões com oficiais políticos do Consulado dos EUA em São Paulo “nem em 2007 nem em qualquer tempo” – e acusou o WikiLeaks de “propagar fofocas”: “Sempre que estive nas cercanias do Consulado ou da Embaixada dos Estados Unidos foi para participar de atos de protestos”.
Primeiro encontro
Um documento enviado a Washington em 28 de abril de 2006 narra um café da manhã no seu apartamento, no centro de São Paulo. O encontro, feito a seu convite, teria durado 90 minutos e contado com a presença da sua sócia, a freira católica americana e também advogada Michael Mary Nolan, além da sua assistente política Miraci Astun.
Greenhalgh estava, segundo o documento, “relaxado e falante”, tendo  rememorado episódios da ditadura – o que o então cônsul-geral  Christopher MacMullen classificou de “histórias de guerra”.
De acordo com o relatório, ao ser inquirido sobre mecanismos de financiamento de campanha, Greenhalgh respondeu que, na sua última candidatura para deputado, ele havia declarado formalmente despesas de R$ 600 mil.
Segundo o relato, ele teria dito então que muitos empresários estavam relutantes em aparecer nas listas de contribuições e faziam doações em espécie ou em serviços como transporte e impressão de flyers.
“Greenhalgh estima que suas verdadeiras despesas com campanha fossem próximas a R$ 720 mil. Quando ele declarou os R$ 600 mil, segundo disse, as pessoas comentaram como a quantia era alta, mas isso durou apenas um dia ou dois. E fazendo uma declaração assim plausível, ele se imunizou contra acusações de irregularidades no financiamento de campanha”, prossegue o relatório.
Ao Tribunal Superior Eleitoral, Greenhalg declarou valores que não condizem com o relato do consulado americano. Na campanha eleitoral de 2002, afirmou ter utilizado R$ 215.161,00. Na de 2006, que foi concluída após o encontro em questão, declarou ter gasto R$ 865.363,00.
No mesmo encontro, ele teria dito que “todo mundo pratica caixa dois” mas haveria “maneiras éticas e não éticas de fazer isso”. Por exemplo, alguns candidatos teriam declarado gastos de R$ 150 mil – o que “não daria para eleger nem um vereador em Itagui” –  quando arrecadaram três vezes este valor.
O texto diz ainda que Greenhalgh avaliava que a reeleição de Lula não estava garantida “de jeito nenhum”. Lula estaria decidido a fazer a elite “o engolir” – e haveria um sentimento mútuo de ódio.
Para o advogado nem Lula nem o seu governo tinham novos programas ou ideias – ambos estariam paralisados desde o escândalo do mensalão.
Greenhalgh também via Lula cada vez mais isolado, já que muitos dos antigos amigos do partido haviam saído do governo. Por isso, o ex-presidente estaria se tornando “cativo da República do Rio Grande do Sul”, liderada por Dilma Rousseff e Tarso Genro.
A conversa também chegou ao caso de Celso Daniel, prefeito petista de Santo André assassinado em 2002. Tanto Greenhalgh quanto Nolan afirmaram que se tratava de um crime comum e que a cobertura da imprensa estava errada. Para Greenhalgh, os seqüestradores entraram em pânico ao descobrir que se tratava de um “VIP”.
MacMullan descreve Greenhalgh como um político sério, mas que “não é admirado  universalmente”, relembrando acusações de corrupção durante seu mandato com vice-prefeito de Luiza Erundina e de tentar encobrir a morte de Celso Daniel. “Dito isso, suas observações sobre os problemas do partido e de Lula são especialmente penetrantes e relevantes”.
Segundo o documento, Greenhalgh falou também do MST, a quem seu escritório representava na época. Ele disse que costumava evitar críticas ao movimento, mas mudou de postura depois da ocupação de propriedade da Aracruz celulose em março de 2006, que causou danos estimados em cerca de 400 mil dólares à companhia.
Na época, o advogado criticou o movimento através de uma declaração pública.
Segundo encontro
A missão americana no Brasil acompanha de perto das ações do MST, como mostrou uma série de documentos publicados pelo WikiLeaks desde dezembro do ano passado.
No abril vermelho de 2007, por exemplo, a embaixada avaliou que houve “muito teatro e pouca substância”, com o uso de “retórica estridente mas pouca destruição de propriedade no ano passado”.
“Os líderes do MST tomaram uma decisão consciente de aumentar o tom dos seus ataques contra o presidente Lula, que era considerado, se não exatamente um deles, pelo menos um simpatizante e protetor do movimento”, avalia documento de 5 de maio daquele ano.
Nele, Greenhalgh é chamado de “informante”, tradução livre para “insider” e mencionado como uma fonte que deve ser protegida.
Segundo o relato, em reunião no dia 20 de abril com oficiais políticos do consulado de São Paulo, Greenhlagh afirmou que o MST estava sendo hipócrita ao manter um tom elogioso com o governo em privado em busca de apoio e financiamento, mas ao mesmo tempo confrontar o governo com retórica agressiva em público.
Citando de maneira indireta o conteúdo da conversa, o documento, também assinado por Christopher McMullen, hoje embaixador em Angola, diz que o ex-deputado teria participado de reuniões entre o MST e o governo Lula durante o primeiro ano de mandato, nas quais os dois lados teriam negociado um “modus vivendi”.
O governo teria, segundo a avaliação de Greenhalgh, mantido sua parte do acordo – garantindo financiamento a ONGs que apóiam ao MST, ou ao próprio movimento, além de realizar novos assentamentos – mas o movimento manteve uma postura de confronto e retórica agressiva.
Por isso Greenhalgh teria decidido se afastar do MST, fator que é citado como um dos motivos para a sua derrota na disputa para a reeleição ao Senado em 2006.
Além disso, segundo o documento, houve impacto no aumento da influência da ex-senadora e atual vereadora de Maceió Heloísa Helena e do partido PSOL sobre os sem-terra.
Procurado pela Pública, o ex-deputado disse que seu nome foi usado “indevidamente” pela comunicação diplomática para “dar mais peso à idéia da direita de criminalizar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra”.
“Sou um militante permanente no combate às tentativas de criminalização dos movimentos sociais. Portanto, o e-mail diz exatamente o contrário do que eu penso”, afirmou.
Terceiro documento
Um terceiro documento, de 5 de junho de 2007, volta ao tema da derrota eleitoral de Greenhalgh, apontando outros fatores.
O documento não deixa claro se houve um novo encontro entre o pessoal do consulado e o ex-deputado, mas descreve que ele teria creditado sua derrota eleitoral também ao seu apoio à reforma da previdência, que desagradou aos aposentados, e ao escândalo do mensalão.
Diz o relato que Greenhalgh afirmou ter sido convidado a assumir o cargo de ministro na Secretaria Nacional de Direitos Humanos, mas não aceitou por que Paulo Vanucchi, que ocupava a pasta, não abriria mão de ficar pelo menos mais seis meses.
Mais uma vez, à Pública, Greenhalgh negou ter dito isso. “Apoiei o ministro Paulo Vanucchi abertamente, em todas suas propostas, especialmente, àquela de criar a Comissão da Memória e da Verdade”.
O documento continua com uma longa análise sobre o ex-presidente Lula. Greenhalgh diz que até a campanha de 2006, Lula sempre havia sido o “talento” ou a “estrela” do PT, tendo sempre alguém nas sombras que era o gerente, ou operador político – seja José Genoíno, José Dirceu ou Antônio Palocci.
Porém, ao ser forçado a praticamente coordenar a própria campanha, Lula teria começado a “dirigir a orquestra e ao mesmo tempo cantar no papel da ópera”. Enquanto Berzoini, de volta ao PT era visto como um líder fraco e aquiescente e Dilma Rousseff como mais técnica que política, Lula estaria fazendo seus próprios acordos políticos – e se distanciando do PT.
Segundo o documento, para Greenhlagh Lula estaria se distanciando do PT e pensando em apoiar um candidato não-petista em 2010.
Perguntado sobre um possível retorno de Lula em 2014, Greenhalgh explicou que a troca de Luiz Marinho por Carlos Lupi no Ministério do Trabalho, teria aproximado o ministério da Força Sindical, em detrimento da aliada histórica, CUT. Essa alienação da base aliada seria uma prova de que Lula não tinha planos para um futuro na política.
No comentário final sobre o encontro com Greenhalgh, MacMullen comenta que a sua avaliação parece acertada em muitos aspectos, mas que às vezes ele “dá a Lula mais crédito do que ele merece”. “A única grande iniciativa política que surgiu nos primeiros cinco meses do segundo mandato foi o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)”.
À Pública, Greenhalgh afirmou: “em 2007, eu já não era deputado federal, já tinha retornado às minhas atividades como advogado, em São Paulo, e já tinha me afastado de reuniões políticas”. Clique aqui para ler a resposta na íntegra.
Todos os documentos da embaixada americana e consulados no Brasil foram publicados pelo WikiLeaks em 11 de julho, estando à disposição de pesquisadores, jornalistas e internautas no site www.wikileaks.org.

Wikileaks: Todos os documentos estão no ar

Da Agência Pública:

Coroando o final da Semana WikiLeaks na Pública, todos os documentos provenientes do Brasil – da embaixada em Brasília e dos consulados em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife – foram publicados no site do WikiLeaks.
São quase 3 mil documentos escritos pela diplomacia americana. Entre eles, 63 despachos do Departamento do Estado para os diplomatas no Brasil e 2919 telegramas enviados a Washington entre 2002 e 2010 (1947 provenientes da embaixada em Brasília e 909 dos consulados de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife).
Entre esses documentos, apenas cerca de 1/5 são classificados – 468 são confidenciais e 73, secretos.
Agora, todos os documentos podem ser lidos pelo público brasileiro diretamente no site do WikiLeaks. Basta clicar no local de origem dos despachos, ou buscar por data. Outra possibilidade é usar o Cablesearch, um site que permite pesquisar os relatos diplomáticos por palavras-chave.
Esses documentos são muito relevantes – contam a história de todo o governo Lula a partir de olhos americanos, ao mesmo tempo em que os Estados Unidos começavam a perder peso no cenário mundial e enfrentar uma pesada recessão que dura até hoje.
É por isso que a Pública tem orgulho de ter colaborado com a sua divulgação.
Vamos publicar ainda algumas reportagens já produzidas pelo nosso time de repórteres independentes durante a Semana Wikileaks, e vamos prosseguir olhando e escrevendo sobre esse rico material durante os próximos meses – e não apenas do Brasil.
A novidade é que, agora, todos os internautas podem fazer o mesmo.