Introdução
Como se dá o processo de conhecimento e de leitura do mundo é uma das questões que mais se puseram, e ainda se põe, em jogo no mundo contemporâneo. Especialmente a partir do surgimento das análises acerca da ideologia, pelo menos três formas de abordagem foram apresentadas (cf. BACCEGA 2000).
A teoria mecanicista do reflexo privilegia o objeto, sendo o sujeito um ser puramente passivo. Em compensação, uma segunda abordagem ressalta o sujeito. A realidade se torna absolutamente subjetiva, sendo criada pelo sujeito.
A terceira abordagem é aquela que afirma que o conhecimento surge de uma ativa interação entre sujeito e objeto. Adotamos tal abordagem a fim de entendermos a produção e leitura do discurso lingüístico.
Assim, lembramos Bakhtin (1997:290), que definiu que o receptor (interlocutor) de um dado discurso o recebe com aquilo que ele chamou de atitude (em alguns casos, compreensão) responsiva ativa: “ele concorda ou discorda (total ou parcialmente), completa, adapta” o enunciado.
Nesse ponto é importante questionar acerca dos níveis de condicionamentos ideológicos que sofrem tais atitudes responsivas no indivíduo. Em que medida um sujeito, diante da manifestação de um discurso, faria, então, uma interpretação realmente “livre”? Até que ponto o sujeito é “achatado”, enquanto o texto é “domesticado”? (ORLANDI, 1988: 70)
Aqui, a Análise do Discurso procura esclarecer os condicionamentos provocados pela Ideologia (as distorções em uma compreensão responsiva) na recepção de uma formação discursiva e suas manifestações textuais. E uma instituição em que esse processo é muito nítido é a Igreja, seja católica ou protestante. Por isso, nosso trabalho buscará analisar como isso dá especialmente no ambiente protestante brasileiro contemporâneo, bem como no processo, indivíduos e idéias têm sido excluídos como subversivos e hereges.
1. Ideologia e formação discursiva
A Ideologia é um conjunto de representações que “servem para justificar e explicar a ordem social, as condições de vida do homem e as relações que ele mantém com os outros homens”. É, assim, na visão marxista uma “falsa consciência” (FIORIN, 2001: 28).
Cada classe tem sua própria ideologia em uma formação social. E cada uma dessas ideologias tem a sua própria formação discursiva. (Id.: 29) Desse modo, cada sujeito, ligado que é a uma classe, identifica-se com uma determinada posição de sujeito, comprometida a uma dessas possíveis formações discursivas. Ao mesmo tempo, põe-se em tensão em relação às demais posições de sujeitos, ligadas a outras das formações discursivas (ideológicas) da sociedade (INDURSKY, 1998: 190).
Dessa maneira, a discursivização acontece não no indivíduo, mas sim na classe social. “O indivíduo não pensa e não fala o que quer, mas o que a realidade impõe que ele pense e fale” (FIORIN, 2001: 43). Ele, em verdade, é um sujeito assujeitado, tendo a “ilusão de ser a origem do que diz” (ORLANDI, 1988: 69).
As formações sociais têm, todas, uma Ideologia dominante. Mesmo que estejam presentes na sociedade inúmeras visões de mundo diferentes, a Ideologia dominante será, evidentemente, a Ideologia da classe dominante (Id.: 31). E, assim, a formação discursiva dominante será determinada por essa Ideologia e essa classe (Id.: 41).
Desse modo, as leituras e as atitudes responsivas dos leitores nunca se separam de uma determinação discursiva, ideológica. “Lendo” o mundo a partir de uma muito determinada posição de sujeito, no bojo de uma formação discursiva definida, o indivíduo sempre terá uma compreensão responsiva ativa comprometida ideologicamente. Assim, o leitor é, na verdade, um efeito-sujeito1, já que se identifica com uma posição de sujeito (INDURSKY, 1998: 189).
Os movimentos de leitura do leitor estão condicionados à formação discursiva da qual faz parte. Essa formação vai definir, assim, o processo de produção de sentido de determinado texto a partir da conexão da língua e da história com um sujeito colocado em função de uma ideologia (FERREIRA, 1998: 203). Nas palavras de Orlandi (1988:60), “na produção da linguagem, o que temos não é a transmissão de informação mas efeitos de sentido entre locutores”.
A produção de sentido de uma leitura de um sujeito se dá em relação às seqüências discursivas internas que geram uma matriz de sentido, própria de cada formação discursiva, que vai definir o movimento de leitura. Em outras palavras, o processo que produzirá o sentido da leitura de um indivíduo acontece com a confrontação do texto com toda a matriz (de sentido) ideológica de sua posição sujeito (INDURSKY, 1998: 190).
Por isso, quando se transpõe uma leitura para uma diferente formação discursiva ela, necessariamente, produzirá um sentido diferente, já que é transposta, também, para uma matriz de sentido diferente (Id.: 191).
O assujeitamento do indivíduo em relação aos textos se dá de maneira interessante. O sujeito é livre para determinar o(s) sentido(s) do texto na sua leitura. Mas estes sentidos autorizados são poucos; alguns e não outros. Além disso, se mantém a exigência de não-contradição em relação ao discurso oficial, um verdadeiro assujeitamento do saber2 (ORLANDI, 2001: 49).
Pode-se daí concluir que não seria possível uma compreensão/atitude responsiva ativa subjetiva por parte do leitor. Bakhtin (1990: 91) afirma que as relações dialógicas do discurso do outro no objeto do enunciado e na resposta antecipada que esse enunciado supõe interferem decisivamente no interlocutor, “procurando afetar e destruir o fundo aperceptivo de sua compreensão ativa”. Sua compreensão estará cada vez mais condicionada à medida que seja mais intensa sua relação com a formação discursiva, imposta por sua identidade como sujeito social. Citando Pêcheux, Possenti (2001:24) diz, nesse sentido, “que o discurso é tanto mais univocamente legível quanto mais ele estiver ligado a uma instituição”.
O confronto de relações sócio-históricas fundadas e permeadas por relações de poder constrói os sentidos de uma leitura. “Tudo isso tendo como pano de fundo e ponto de chegada, quase que inevitavelmente as instituições” (ORLANDI, 1988: 60).
Desse modo, a construção de sentidos de uma leitura se realiza em um processo lingüístico e histórico que acontece em um processo social em que os sujeitos determinam e são determinados (FERREIRA, 1998: 206). “A leitura é um processo de desvelamento e de construção de sentidos por um sujeito determinado, circunscrito a determinadas condições sócio-históricas” (Id.: 208).
Desse modo, se dado enunciador exerce autoridade (liderança carismática) sobre o interlocutor/leitor, em relevante posição como agente do discurso, a atitude responsiva tenderá a ser contratual. Do contrário, se o leitor ocupa uma posição de sujeito em uma formação discursiva diversa e oposta à do enunciador, sua atitude tende à polêmica (ORLANDI, 1988: 67). Quaisquer manifestações discursivas ou textuais que polemizem contra a formação discursiva dominante, especialmente nas posições de sujeito institucionais, serão desconsideradas pelo interlocutor em questão.
Uma figura ideológico-institucional importante aqui é a Igreja, vista ainda como Aparelho Ideológico do Estado. Em momentos históricos relevantes, assumindo a formação discursiva da Ideologia dominante (ou mesmo sendo essa Ideologia), a Igreja promoveu o fechamento e o encurtamento de sentidos possíveis de leitura.
A incursão por rotas de leituras polissêmicas, com sentidos construídos a partir de livres interpretações, está permanentemente bloqueada a nível institucional, eclesiástico. Qualquer tentativa de iniciativa nessa direção, qualquer ultrapassagem da leitura parafrástica, especialmente dos textos fundamentais religiosos, será logo classificada como pecado, rebeldia, blasfêmia.
Isso foi muito claro durante a Idade Média, quando o monopólio do saber por parte da Igreja significava monopólio das construções de sentido também. Se porventura leituras fossem feitas à parte dos movimentos de leituras oficiais, tais sujeitos, hereges, sofreriam punição exemplar.
Logo, o sujeito que buscasse transportar-se para uma outra posição-sujeito, relacionada à matriz de sentido de uma outra formação discursiva possível, seria posto pela instituição (no caso, a Igreja), na condição de subversivo, herege, que precisa ser punido.3
O que foi realidade na Igreja Católica medieval e moderna, através do Tribunal do Santo Ofício e o Index Librorum Proibitorum (e continua a ser real, mas de forma menos violenta), efetivou-se em ambientes protestantes brasileiros no período do Regime Militar (1964-1985), refletindo-se ainda até os dias de hoje.
É a respeito da relação do discurso oficial das igrejas protestantes brasileiras com leituras e formações discursivas não comprometidas com a Ideologia dominante, marcadamente no período pós-1964, que gostaríamos de nos deter agora. Nossa análise se firmará na Análise do Discurso, conforme exposta acima.
Aqui será nossa pretensão perceber como se posiciona o discurso eclesiástico diante da produção de texto que se lhe opõe. E, dessa maneira, procurar entender como se dá a leitura de tais textos por parte da classe dominante (eclesiástica) e por sujeitos posicionados nessa determinada formação discursiva. Em outras palavras, pretendemos descobrir o processo de classificação de determinados textos como subversivos/heréticos por parte das Igrejas, e como tais textos (e autores) foram e são lidos por essas comunidades.
2. Polissemia e paráfrase
Todo discurso é produzido pela articulação de dois processos que fundamentam a linguagem: a paráfrase e a polissemia (ORLANDI, 2001: 20). Nesta seção será nosso objetivo definirmos, de acordo com Orlandi (1996, 2001), esses dois processos, a fim de que possamos compreender como eles se conectam na formação do discurso.
Enquanto a paráfrase se relaciona com o que Orlandi (1996: 137) chama de produtividade, a polissemia é um fenômeno relacionado com a criatividade. Na paráfrase, toda criação é a reiteração de processamentos e sentidos institucionalizados (Id.:Ibid). É a matriz de sentido da linguagem, “que permite a produção do mesmo sentido sob várias de suas formas” (ORLANDI, 2001: 20).
Assim, toda criação do sujeito, no processo parafrástico, reduz-se ao mesmo espaço do dizível (ORLANDI, 1996: 137). Sob formas textuais diferentes, as mesmas coisas são ditas e lidas. Ricoeur (1999:21) diz que um discurso, enquanto evento, pode “identificar-se e reidentificar-se como o mesmo, de maneira que o possamos dizer novamente ou por outras palavras”, preservando ainda o seu conteúdo proposicional, “o ‘dito enquanto tal’”.
Orlandi chama esse fenômeno de “produtividade” em oposição à “criatividade” polissêmica. Textos podem ser produzidos, inclusive em quantidades, mas nenhum novo sentido é trazido à luz nesse processo. O sentido, “dado”, necessita apenas ser “reconhecido”.
Dessa forma, também, não é possível qualquer livre interpretação dentro do campo da paráfrase. Na leitura, limitados sentidos são considerados legítimos. O sujeito está “livre” para atribuir qualquer sentido dentre esses (ORLANDI, 2001: 49).
A polissemia é o campo do novo na linguagem. Enquanto na paráfrase o sentido é o já “dado”, na polissemia ele é “novo”. Esse novo é criativo, deslocando o sentido do legitimado, sedimentado e institucionalizado, para sentidos que, “atribuídos”, buscam se afirmar.
O processo polissêmico é a fonte do sentido da linguagem, “responsável pelo fato de que são sempre possíveis sentidos diferentes, múltiplos” (ORLANDI, 2001: 20). Tomando por empréstimo o pensamento de Umberto Eco (1997) sobre a “obra aberta”, sentidos diversos podem ser tomados e sobre cada um desses diversos sentidos, infinitos pontos de vista. Qualquer síntese desse processo é impossível. Dessa maneira, a absolutização de um sentido na poética é considerada ilegítima. Para ele, tal tendência ao ambíguo (o que chamaríamos polissêmico) reflete a crise contemporânea. As monossemias em todas as áreas estão em questão (ECO, 1997: 60).
Podemos, então, transpor o que o ensaísta italiano diz para a nossa análise do discurso, de maneira crítica. Desse modo, a afirmação da “obra aberta” no contexto de formações discursivas que busquem a monossemia e a paráfrase serve para a corrosão dessas bases estruturais de poder.
Portanto, a visão do texto como “obra aberta” (polissêmico) é incongruente com o discurso religioso, afirmando-se apenas no discurso lúdico. Tal visão precisa ser vetada institucional e discursivamente. Todo o sentido somente poderá ser extraído a partir da autoridade da Igreja, em sua teologia e tradição. Ou seja, seu discurso e ideologia dirão que sentido se afirma como legítimo e literal.
2.1. Literalidade
O surgimento da literalidade do sentido é um processo histórico. O sentido literal não passa de um efeito discursivo, produto da sedimentação de um sentido condizente com a formação discursiva dominante na história (ORLANDI, 1996: 144). E ainda mais, segundo Orlandi (2001):
A sedimentação de processos de significação se faz historicamente, produzindo a institucionalização do sentido dominante. Dessa institucionalização decorre a legitimidade, e o sentido legitimado se fixa então como centro: o sentido oficial, literal. (ORLANDI, 2001: 21)
Dessa forma, diante de um texto, a busca por um sentido nuclear a partir do qual posso derivar meus sentidos de leitura é completamente inadequada, por ideológica que é. Não há centro (o sentido literal) e margens (efeitos de sentido). Tudo é margem, já que todos os sentidos são possíveis, apesar de um deles, dentro de determinadas condições de produção, ter-se feito dominante (ORLANDI, 1996: 143-144).
Esse processo é especialmente nítido no discurso religioso. No caso da interpretação de textos bíblicos, por parte do protestantismo e do catolicismo, o sentido literal, definido pela dogmática, afirmações de fé e tradição eclesiástica, ou seja, institucionalizado através da história, é de valor inquestionável. Esse valor é atribuído também aos chamados credos ecumênicos, primeiros escritos teológicos (dogmáticos) da história da igreja cristã. Ao longo do tempo, guerras foram travadas, pessoas condenadas e muitas vezes mortas a fim de que o sentido literal, legítimo e autorizado pela instituição, fosse mantido intacto.
Assim, a busca na análise de textos não deve ser pelo sentido literal, mas deve se voltar para a verificação de como, “entre os vários sentidos, um (ou mais) se tornou dominante” (Id.: 145). Em outras palavras, qual o processo histórico, ideológico e político que levou à sedimentação deste ou daquele sentido4.
A literalidade é um outro aspecto do que chamamos de matriz de sentido. Na verdade, é ponto essencial na articulação do discurso, já que textualiza o processo parafrástico do discurso. O dizer as mesmas coisas com outras palavras deve-se grandemente à afirmação de um sentido literal, que se torna relevante na definição dos tipos possíveis de discurso.
3. Tipos do Discurso
Entendendo a importância metodológica de se definir uma tipologia dos discursos, permanecemos relacionados com Orlandi (1996, 2001) e adotamos seus tipos do discurso, a fim de perfazer a nossa análise.
A tipologia discursiva que a autora desenvolve baseia-se nas relações entre paráfrase e polissemia nas dadas formações discursivas, manifestadas nos textos analisados. Além disso, a reversibilidade é a condição básica do discurso (ORLANDI, 1996: 239).
Para ela, a reversibilidade é “a troca de papéis na interação que constitui o discurso e que o discurso constitui” (Id.: Ibid.). A reversibilidade sobrevive em qualquer formação discursiva, ainda que na forma de ilusão (Id.: 240).
A tipologia de Orlandi classifica os discursos em três: o lúdico, o polêmico e o autoritário, sendo o discurso religioso uma espécie deste último. Essa classificação leva em conta que a relação entre polissemia e grau de reversibilidade do discurso é diretamente proporcional: quanto maior o teor de reversibilidade, mais aberta é a polissemia.
Dessa maneira, o discurso lúdico tende a uma polissemia aberta, resultante de um grau de reversibilidade total entre os interlocutores. O discurso lúdico contrasta com a prática social de uso da linguagem para fins práticos, imediatos. Nesse sentido, sem espaço na nossa sociedade, o “lúdico é o que ‘vaza’, é ruptura”. Seu exagero é o non sense (Id.: 154-5).
Já o discurso polêmico apresenta equilíbrio entre polissemia e paráfrase (polissemia controlada) e a reversibilidade acontece sob certas condições. Apresenta-se de forma ideal nas condições dialógicas dialéticas, em que os sentidos do discurso vão sendo construídos plenamente pelos interlocutores. O seu exagero é a injúria.
Por fim, o discurso autoritário tende à paráfrase. A reversibilidade é quase nula5, havendo um agente único do discurso. Com a polissemia contida, procura-se impor um sentido absoluto (monossemia). A ordem no sentido militar, representando o assujeitamento ao comando, é o seu exagero.
Orlandi lembra que esses tipos não se definem por sua essência, mas como tendência (Id.: 155). Não há um discurso puro. “O que há são misturas, articulações de modo que podemos dizer que um discurso tem um funcionamento dominante autoritário, ou tende para o autoritário (para a paráfrase) etc” (ORLANDI, 1999: 87).
3.1. O discurso religioso
Segundo Orlandi, não existe uma marca exclusiva do discurso religioso: as antíteses e o uso do imperativo, presentes nesse discurso, aparecem também em outros tipos de discurso (1996: 235). No entanto, há certas marcas lingüísticas que ajudam a definir esse tipo de discurso. Do ponto de vista gramatical, a presença de figuras como a negação, a perífrase e o imperativo. São marcas textuais importantes a antítese, a parábola e a metáfora (ORLANDI, 2001: 25).
A ilusão de reversibilidade do discurso religioso se institui “pela profecia, pela visão, pela performatividade das fórmulas religiosas, etc.”(ORLANDI, 1996: 236). Esse discurso se caracteriza como aquele em que é Deus quem fala, marcando um desnivelamento essencial: “o locutor é do plano espiritual (o Sujeito, Deus) e o ouvinte é do plano temporal (os sujeitos, os homens)” (Id.: 243).
Assim, a interação é assimétrica: o espiritual domina o terreno, Deus domina sobre os homens. A partir dessa relação desigual entre os interlocutores, nasce a necessidade de o homem ser salvo, o que só pode ocorrer por meio da fé (Id.: Ibid.).
Nesse discurso, o representante tem nenhum grau de autonomia: sua voz, de forma simbólica, é como se fosse a voz de Deus. Dessa maneira, o representante de Deus não pode modificar a Sua voz de forma alguma. A relação entre o representante e a voz de Deus é regulada pelo texto sagrado e pela teologia da Igreja (Id.: 244-5). Estar no lugar de não significa estar no lugar próprio (Id.: 252).
Com o discurso religioso se encontrando no âmbito de uma formação discursiva comprometida fortemente à ideologia dominante conservadora, por fim o Deus que fala através desse agente (o pastor ou teólogo) torna-se uma imagem construída a partir do próprio discurso dominante. Em outras palavras, esse Deus e sua voz são, na verdade, a tradução dos interesses e idéias das classes dominantes.
Desse modo, o questionamento de tal discurso religioso transmuta-se em plena insubmissão a Deus. Toda ultrapassagem desse discurso não passaria, então, de pecado e blasfêmia. A posição e os interesses dessa formação discursiva se tornam intocáveis.
Na Igreja cristã, a definição de sentidos legítimos de leitura está a cargo do teólogo (ORLANDI, 2001: 87). O lugar de onde ele fala constitui o que ele diz. Dessa maneira, suas palavras têm autoridade sobre a comunidade religiosa de fies (ORLANDI, 1999: 39). Existe sempre a possibilidade de interpretações e leituras diferentes das oficiais, além dos limites tais transgressões são consideradas ilegítimas, instituindo heresias, novas seitas, desvios da fé (ORLANDI, 1996: 245). Assim, nascem os hereges e subversivos eclesiásticos.
No discurso religioso não há espaço para a polissemia. Eco (1997:43) diz que “há somente um feixe de resultados [de leitura] fruitivos rigidamente prefixados e condicionados, de maneira que a reação interpretativa do leitor não escape jamais ao controle do autor”. Não existem, pois, outras leituras possíveis.
Leitores independentes, obviamente, no ambiente religioso são perigosos (MANGUEL, 1997: 69). Para a instituição, especialmente as igrejas, os leitores não podem ser entendidos de nenhuma outra forma diferente de subversivos (Id.: 35).
Orlandi observa, ainda, que segundo Gramsci, a atitude do cristianismo primitivo e do protestantismo é ativa, fornecendo uma base ideológica para a ação positiva. Por outro lado, o catolicismo jesuíta funciona ideologicamente como “ópio do povo”, gerando passividade, representando uma “ideologia ‘inútil’” (ORLANDI, 1996: 249). É evidente que na medida em que se institucionalizaram, cristianismo primitivo e protestantismo (inclusive, no caso brasileiro) se tornaram de forma mais íntima comprometidos com as ideologias dominantes, perdendo parte de seu poder crítico.
O discurso religioso, especialmente na sua forma cristã não herética, tem, por fim, como propriedades a assimetria entre o plano espiritual e o plano material, a não-reversibilidade (com a ilusão de reversibilidade) entre esses planos e os mecanismos de negação (ORLANDI, 1996: 260; ORLANDI, 2001: 25).
4. Uma análise
A partir das nossas considerações anteriores, procuramos agora analisar um exemplo recente de como funcionam os mecanismos que viemos expondo até aqui, no contexto do protestante brasileiro.
A formação ideológica protestante e sua respectiva formação discursiva prendem-se a uma interpretação da Bíblia que, entre outros princípios importantes, coloca o respeito à autoridade constituída como elemento da máxima importância. Contradizer o pastor ou governante, agente da discursivização oficial, é rebeldia. Não se deve ir contra o “ungido de Deus”.
Quem, dessa maneira, vai de encontro ao discurso oficial põe-se em situação difícil diante da instituição. Esse sujeito, na verdade, no transitar de um efeito-ideológico para outro, altera sua posição, seu efeito-leitor (INDURSKY, 1998: 191-2). Assim, ele passa a uma posição polêmica entre dois processos discursivos, sendo um deles institucional e dominante. O sujeito, então, é um rebelde, pecado que, segundo a Bíblia, é igual ao da feitiçaria6.
Em suma, a ideologia religiosa dominante tem como matriz principal de sentido a submissão e a obediência irrestrita à autoridade da igreja. O herege e o subversivo nascem quando o sujeito se decide a se posicionar criticamente dentro dessa formação.
Segundo Orlandi (1989: 40), silenciamento “é a prática de processos de significação pelos quais ao dizer algo apagamos outros sentidos possíveis mas indesejáveis em uma situação discursiva dada”. A denominação como subversivos e heréticos é uma ação de silenciamento. A denominação como subversivo e herege define sujeito e texto como à parte da Igreja. Exclui e silencia (Id.:Ibid.).
Por outro lado, o discurso influenciado por essa matriz de sentido muitas vezes desconsidera as marcas lingüísticas e o próprio texto na construção dos sentidos de leitura. Isso se torna claro no exemplo abaixo.
Texto 1:
Mais um texto bíblico nos revela o Deus das revoluções: “Deus derrama desprezo sobre os nobres e os faz vagar num deserto sem caminhos. Mas tira os pobres da miséria e aumenta as suas famílias como rebanhos” (Salmo 107. 41-42).
As nossas igrejas de mentalidade burguesa precisavam prestar mais atenção para textos como esse. E promover a revolução, não o status quo. Mas parece cada vez mais difícil, se nossos líderes adoram trocar de carrões todos os anos e brigar na igreja por besteiras sem fim.
(Disponível em: http://seminaristarevolucionario.blogspot.com, 25 jan 2003).
Texto 2:
Preciso descobrir o anarco-comunismo e o movimento punk. Tenho impressão de que encontrarei muito mais elementos cristãos (e revolucionários) do que imaginamos. E ninguém me tirará da cabeça que, como igreja, necessitamos descobrir e fazer viver ,alternativas aos paradigmas que estão aí…
(Disponível em: http://seminaristarevolucionario.blogspot.com, 01 jul 2003).
Texto 3:
No blog, ele diz que a igreja precisa quebrar os seus paradigmas e uma das coisas que ele pensa sobre a igreja é que ela deveria ser ou ter princípios anarco-comunista e punk. Pois isso tem a ver com o cristianismo. Disse também que a liderança da igreja só pensa em comprar carro novo todo ano e discutir besteiras sem fim. A leitura que faço, é que ele tem um problema muito sério com autoridade. Gosto dele e lamento, mas não vou abrir precedentes para ele, para amanhã a igreja se tornar impossível de ser liderada e dirigida. Não tenho apego ao poder, mas tenho zelo pela Igreja. E não vou deixar que as coisas caminhem para um ponto sem retorno.
(Correspondência eletrônica)
O discurso autoritário tende à paráfrase, com reversibilidade e polissemia contidas (ORLANDI, 2001: 24). Dessa maneira, o texto que fuja ao sentido “literal”, definido institucionalmente, deve ser detido.
No nosso exemplo, os textos 1 e 2 foram publicados em um blog (diário eletrônico gratuito pela Internet). Seu autor faz parte de uma igreja protestante e se denomina “Seminarista Revolucionário”.
O texto 3 é a fala do pastor da igreja, um agente do discurso, sobre os dois primeiros textos. Logo, é uma leitura institucional de textos posicionados criticamente em relação à ideologia religiosa oficial do protestantismo brasileiro.
O que nos chama atenção imediata no texto 3 é a referência explícita que o sujeito faz à leitura. Aliás, através dos textos, o pastor se propõe a ler o próprio autor: “A leitura que faço é que ele tem um problema muito sério com autoridade”.
A gravidade implícita aí diz respeito à teologia que afirma a submissão e obediência irrestrita aos líderes. A fala discursiva está afirmando que o autor dos textos 1 e 2 não cabe na instituição, marcadamente hierarquizada.
Logo, se alguma providência não for tomada, a hierarquia e seu poder vão ruir: “Gosto dele e lamento, mas não vou abrir precedente para ele, para amanhã a igreja se tornar impossível de ser liderada e dirigida”.
Apesar de 3 estar recheado por idéias relacionadas com a manutenção do poder, o pastor procura minimizá-las. Assim, o texto afirma, como uma ressalva piedosa: “Não tenho apego ao poder, mas tenho zelo pela igreja”. Essa frase tem forte conotação ideológica, ainda mais quando levamos em conta a intensidade das expressões usadas no texto, todos na primeira pessoa do singular, carregados fortemente por sentidos autoritários: “ele tem um problema”, “não vou abrir precedentes”, “não tenho(…)mas tenho”, “não vou deixar”.
Foucault (1999:21) afirma que o poder “se exerce e só existe em ato”, através de uma relação de força. Para ele, “o poder é essencialmente o que reprime” (Id.:Ibid.). A partir disso, o filósofo francês acredita que um esquema de análise do poder mais apropriado leva em consideração o par dominação-repressão, sendo pertinente “a oposição entre luta e submissão” (Id.: 24).
Do século XIX em diante, são as coerções disciplinares garantem a coesão do corpo social (Id.: 40). No ambiente eclesiástico, a coesão também precisa ser mantida pelo poder disciplinar. No entanto, o
discurso da disciplina é alheio ao da lei; é alheio ao da regra como efeito da vontade soberana. Portanto, as disciplinas vão trazer um discurso que será o da regra; não o da regra jurídica derivada da soberania, mas o da regra natural, isto é, da norma. (Id.: 45)
No caso em estudo, a norma da igreja, que pressupõe submissão e autoridade, ou seja, uma relação de poder, foi ferida. Em conseqüência, o dito sujeito deverá sofrer a sanção disciplinar: “não vou abrir precedente”.
Para Foucault, há um contra-senso na prática jurídica da sociedade (que termina por conduzir à repressão). Ele o diz de outra forma, mas afirma que os dois pilares do direito burguês são o estatuto jurídico da soberania (social) e a prática das normalizações disciplinares. Foucault afirma que esses dois são incompatíveis. Surge, assim, a medicalização geral dos comportamentos como discurso árbitro para reger essas relações. Esse processo parece sugerir que os sujeitos disciplinados na sociedade serão classificados como enfermos ou doentes.7
Destaca-se na leitura do texto 2 promovida pelo pastor a desconsideração de importantes marcas textuais. Esse procedimento produz a construção de sentidos estranhos ao texto mesmo.
Texto 2:
Preciso descobrir o anarco-comunismo e o movimento punk. Tenho impressão de que encontrarei muito mais elementos cristãos (e revolucionários) do que imaginamos. E ninguém me tirará da cabeça que, como igreja, necessitamos descobrir e fazer viver alternativas aos paradigmas que estão aí…
Texto 3:
No blog, ele diz que a igreja precisa quebrar os seus paradigmas e uma das coisas que ele pensa sobre a igreja é que ela deveria ser ou ter princípios anarco-comunista e punk. Pois isso tem a ver com o cristianismo.
O pastor leu que o texto 2 diz que a igreja “deveria ser ou ter” princípios anarco-comunista ou punk. No texto, usando a primeira pessoa do singular, o Seminarista Revolucionário diz precisar descobrir o anarco-comunismo e o movimento punk.
Leu também que o texto diz que “isso tem a ver com o cristianismo”. Na verdade, o texto diz, ainda na primeira pessoa: “Tenho a impressão de que encontrarei muito mais elementos cristãos (e revolucionários) do que imaginamos”.
O agente discursivo autorizado pela instituição eclesiástica, nesse caso, desconsiderou, inclusive, as marcas gramaticais e lingüísticas na atribuição de sentido aos textos dados.
Esse caso parece confirmar que a ideologia e uma formação discursiva da qual fazemos parte influencia, inclusive, as antecipações que realizamos em nossas leituras. O procedimento descendente ou top-down (SMITH 1999 e KATO, 1999: 49-63), assim, conduz a uma leitura equivocada, viciada, quando interpomos palavras inexistentes no texto. Quando este procedimento equivocado de leitura se torna relevante ideológica e discursivamente é valorizado e protegido da crítica. Os seus equívocos são, assim, escondidos.
Conclusão
O discurso tem sido entendido como o campo lingüístico da luta de classes. Tal luta ideológica também tem se instrumentalizado na instituição religiosa como fundamento básico.
Nosso objetivo neste trabalho foi mostrar como o confronto ideológico e a afirmação do discurso dominante se dão no discurso protestante brasileiro. Dessa maneira, buscamos entender os mecanismos de exclusão embutidos na classificação como hereges. Buscamos, também, compreender como funcionam esses mecanismos, através da análise de um caso concreto e atual.
Afirmamos, assim, a força, a fraqueza e as possibilidades do protestantismo brasileiro, a partir da análise de seu discurso e da constatação de seus conflitos ideológicos internos.
Ao fim do trabalho, entendemos que por uma conjuntura ideológica, todo discurso voltado às preocupações sociais e à crítica do status quo que tem surgido no meio protestante brasileiro tende a ser excluído, tratado como herético.
Dessa forma, traindo seu potencial crítico revolucionário (como foi exemplo a Revolução Inglesa no século XVII), o protestantismo brasileiro, especialmente após o Golpe de 64, tornou-se aliado da classe dominante, instrumento na manutenção do status quo. Assim, toda possível fala discordante deve ser silenciada, “disciplinada”, “corrigida”. Isso ficou claro nos casos analisados acima, que também mostrou a força do discurso religioso (e autoritário), tradicional, falado pela figura institucional do teólogo.
A religião protestante procura se aliar, em nosso país, ao discurso dominante, já que em sua mentalidade elitista se alimenta da e mantém a Ideologia dominante. Essa, talvez, seja a maior constatação deste trabalho, com o que nos damos por satisfeito.
Referências bibliográficas
BACCEGA, Maria Aparecida. Palavra e discurso: história e literatura. São Paulo: Ática, 2000.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
______. Questões de literatura e de estética. São Paulo: Hucitec/Unesp, 1990.
ECO, Umberto. Obra aberta. 8 ed. São Paulo: Perspectiva, 1997.
FERREIRA, Maria Cristina Leandro. “Nas trilhas do discurso: a propósito de leitura, sentido e interpretação” in ORLANDI, Eni Puccinelli (org). A leitura e os leitores. Campinas/SP: Pontes, 1998.
FIORIN, José Luiz. Linguagem e ideologia. 7 ed. São Paulo: Ática, 2001.
FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Pontes, 1999.
INDURSKY, Freda. “A prática discursiva da leitura” in ORLANDI, Eni Puccinelli (org). A leitura e os leitores. Campinas/SP: Pontes, 1998.
KATO, Mary. O aprendizado da leitura. 5 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
ORLANDI, Eni P. A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. 4 ed. Campinas, SP: Pontes, 1996.
______. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes: 1999.
______. Discurso e leitura. 6 ed. São Paulo: Cortez; Campinas, SP: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 2001.
______. “O inteligível, o interpretável e o compreensível” in ZILBERMAN, Regina & SILVA, Ezequiel Theodoro. Leitura: perspectivas interdisciplinares. São Paulo: Ática, 1988.
______. “Silêncio e implícito (Produzindo a monofonia)” in GUIMARÃES, Eduardo (org) História e sentido na linguagem. Campinas, SP: Pontes, 1989.
POSSENTI, Sírio. “Sobre a leitura: o que diz a Análise do Discurso?” in MARINHO, Marildes (org) Ler e navegar: espaços e percursos da leitura. Campinas/SP: Mercado de Letras:Associação de Leitura do Brasil – ALB, 2001.
RICOUER, Paulo. Teoria da interpretação. Lisboa: Edições 70, 1999.
SMITH, Frank. Leitura significativa. 3 ed. Tradução por Beatriz Affonso Neves. Porto Alegre: Artmed, 1999.
Pingback: Como nascem os hereges? « De olho no discurso