As coisas que aprendi nos discos – João Bosco e Aldir Blanc

Posted on 31/07/2011

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Quilombo/Tiro de Misericórdia
 
A parceria entre João Bosco e Aldir Blanc rendeu alguns dos mais fantásticos momentos da MPB.  A forma como compõem possui um forte traço jornalístico: ouvir suas músicas, algumas delas obras-primas da Música Brasileira, é como ler notícias do dia a dia.
Outro aspecto que se destaca, a meu ver, reflexo do enfoque no cotidiano que sua música jornalítica dá, é a forma poética direta com que se refere ao falar e aos discursos populares.  Não é a toa que Aldir e João entraram de forma significa para a história dos movimentos sociais e da mudanças políticas do país.  Essa preocupação está lá, de forma muito direta.  Desse modo, O bêbado e a equilibrista tornou-se o hino da luta pela anistia no país – que foi ampla, geral e irrestrita, mas sobre a qual aumenta o clamor para que se puna aqueles que atentaram contra a humanidade: tortura não tem anistia – torturador não pode ser anistiado.
Mas não é esta canção que queria destacar.  Na verdade, são duas que estão no pout-pourri abaixo (que tem três músicas): Quilombo e Tiro de Misericórdia (a outra, que não é nosso objetivo hoje, é Escada da Penha) (vídeo e letras)
 
 
 


Quilombo
João Bosco & Aldir Blanc

Cama arruma a cama arruma a cama
Cama arruma a cama arruma a cama
Cana apanha a cana apanha a cana
Cana apanha a cana apanha a cana
Trama arruma a trama arruma a trama
Trama arruma a trama arruma a trama
Tranca arromba a tranca arromba a tranca
Tranca arromba a tranca arromba a tranca
Zanga atiça a zanga atiça a zanga
Zanga atiça a zanga atiça a zanga
Fogo ateia o fogo ateia o fogo
Fogo ateia o fogo ateia o fogo
Ponta afia a ponta afia a ponta
Ponta afia a ponta afia a ponta
Canto apruma o canto apruma o canto
Canto apruma o canto apruma o canto.

(trecho abaixo não é cantado no vídeo)
os soldados vem buscá
os esclavo do sinhô
é preciso se cuidá
cum ataque do invasor
garra prá lutá
fossa pá cavá
lenha pá acendê
ramo pá cortá
fio pá tecê
arco pá fazê
pedra pá jogá
faca pá amolá
água pá fervê
vamos disfarçar vamos preparar vamos devolver
eh camacana eh camacana eh camacana eh
eh tramatranca eh tramatranca eh tramatranca eh
eh zangafogo eh zangafogo eh zangafogo eh
eh pontacanto eh pontacanto eh pontacanto eh

Tiro de Misericórdia
João Bosco & Aldir Blanc

O menino cresceu entre a ronda e a cana
correndo nos becos que nem ratazana.
Entre a punga e o afano, entre a carta e a ficha
subindo em pedreira que nem lagartixa.
Borel, Juramento, Urubu, Catacumba,
nas rodas de samba, no eró da macumba.
Matriz, Querosene, Salgueiro, Turano,
Mangueira, São Carlos, menino mandando,
ídolo de poeira, marafo e farelo,
um deus de bermuda e pé-de-chinelo,
imperador dos morros, reizinho nagô,
o corpo fechado por babalaôs.

Baixou Oxolufã com as espadas de prata,
com sua coroa de escuro e de vício.
Baixou Cão-Xangô com o machado de asa,
com seu fogo brabo nas mãos de corisco.
Ogunhê se plantou pelas encruzilhadas
Com todos seus ferros, com lança e enxada.
E Oxossi com seu arco e flecha e seus galos
e suas abelhas na beira da mata.
E Oxum trouxe pedra e água da cachoeira
em seu coração de espinhos dourados.
Iemanjá, o alumínio, as sereias do mar
e um batalhão de mil afogados.

Iansã trouxe as almas e os vendavais,
adagas e ventos, trovões e punhais.
Oxum-Maré largou suas cobras no chão.
Soltou sua trança, quebrou o arco-íris.
Omulu trouxe o chumbo e o chocalho de guizos
lançando a doença pra seus inimigos.
E Nana-Buruquê trouxe a chuva e a vassoura
Pra terra dos corpos, pro sangue dos mortos.

Exus na capa da noite soltara a gargalhada
e avisaram a cilada pros Orixás.
Exus, Orixás, menino, lutaram como puderam
mas era muita matraca e pouco berro.
E lá no horto maldito, no chão do Pendura-Saia,
Zumbi menino Lumumba tomba da raia
mandando bala pra baixo contra as falanges do mal,
arcanjos velhos, coveiros do carnaval.

– Irmãos, irmãs, irmãozinhos,
por que me abandonaram?
Por que nos abandonamos
em cada cruz?

– Irmãos, irmãs, irmãozinhos,
nem tudo está consumado.
A minha morte é só uma:
Ganga, Lumumba, Lorca, Jesus…

Grampearam o menino do corpo fechado
e barbarizaram com mais de cem tiros.
Treze anos de vida sem misericórdia
e a misericórdia no último tiro.

Morreu como um cachorro e gritou feito um porco
depois de pular igual a macaco.
Vou jogar nesses três que nem ele morreu:
num jogo cercado pelos sete lados.
A leitura evidente é uma manifestação daquelas coisas que dizia acima sobre a presença de um discurso do povo em forma de letra e música.  Um grupo social bem definido, diga-se de passagem, relacionado diretamente ao samba de que são representantes: o negro que veio da escravidão, dos quilombos e hoje está nos morros, nas rodas de samba, nos desfiles de carnaval – no alvo da polícia, no centro do crime organizado, do tráfico, nas estatísticas oficiais transformados em meros números.

É daí que a leitura, para mim, fica mais rica.  A canção nos denuncia.
os soldados vem buscá
os esclavo do sinhô
é preciso se cuidá
cum ataque do invasor
garra prá lutá
fossa pá cavá
lenha pá acendê
ramo pá cortá
fio pá tecê
arco pá fazê
pedra pá jogá
faca pá amolá
água pá fervê
vamos disfarçar vamos preparar vamos devolver

Os soldados vão subir um quilombo.  Mas em que ano?  Em que época?  Quais são os escravos fugidos que precisam ser capturados ou mortos?
O morro é um quilombo, a mensagem é clara.  A resistência que aquela população assume, mesmo quando mulambentos pegam suas matracas para vender tóxico, é a mesma resistência que o menino Zumbi Lumumba coordenou em Palmares.  Por trás das estatísticas frias e da violência que assusta há a luta de um povo para construir suas vidas fugindo da escravidão e da humilhação do homem branco.
O quilombo não é o do Zumbi, não é um Palmares do Brasil colônia.  O quilombo é a favela, a periferia – onde se submetem à mesma guerra e o humilhação tantos no dia a dia.  A polícia vai subir o morro cum ataque de invasor.  Vamos disfarçar vamos preparar vamos devolver.
O povo dos morros e dos quilombos resiste não só à escravidão física e a degradação social que se lhe impõem.  Resiste na cultura.  Carnaval, samba, festa de negro.  Identidade de alforriado, liberdade de uma gente que sempre foi submetida ao sofrimento pela sociedade branca e cristã.  É preciso resistir na religião.
Tiro de Misericórdia apresenta o panteão da religiosidade africana.  A resistência da religião – da solidariedade, hospitalidade, convivialidade proporcionada pelos cultos e pela religiosidade.  Talvez ainda mais vítima de tanta opressão e repressão.  Ser negro, em sua cultura e forma de religiosidade, é ser do demônio e do inferno para as religiosidades brancas e cristãs.
Mas fala de um menino Zumbi Lumumba.  Líder.  Corpo fechado.  Comanda diversos morros cariocas.  Os santos estão ali.  São todos referidos com suas características próprias.  Revelam a resistência pela fé. Mas será só isso?
Os santos estão em guerra?
Os santos também são uma metáfora.  O menino está cercado por mar, terra, ar.  A polícia (ou seria apenas um grupo inimigo?) vai subir.  A batalha vai começar.
Exus na capa da noite soltara a gargalhada
e avisaram a cilada pros Orixás.
Exus, Orixás, menino, lutaram como puderam
mas era muita matraca e pouco berro.
E lá no horto maldito, no chão do Pendura-Saia,
Zumbi menino Lumumba tomba da raia
mandando bala pra baixo contra as falanges do mal,
arcanjos velhos, coveiros do carnaval.
Morreu atirando contra os que invadiam – os soldados que vem cum ataque de invasor.  O quilombo desse Zumbi vai cair.  O morro vai ser ocupado.  O corpo fechado foi aberto.  A música é de 1977 mas as UPP ou a tomada do Alemão fizeram-na ainda mais atualizada.
Ele não morreu exatamente em combate, depois de se questionar onde foi parar sua proteção:

– Irmãos, irmãs, irmãozinhos,
por que me abandonaram?
Por que nos abandonamos
em cada cruz?

– Irmãos, irmãs, irmãozinhos,
nem tudo está consumado.
A minha morte é só uma:
Ganga, Lumumba, Lorca, Jesus…

Referências óbvias à crucificação de Cristo.  Julgado, condenado, torturado, morto.  O líder que morre executado pelos soldados brancos é um Zumbi, como Ganga, Lumumba.  É um herói transformado pelo sistema de poder dos brancos em bandido, inimigo, que necessita ser morto.  É um Frederico Garcia Lorca, poeta espanhol, homossexual, exilado na guerra civil que levou Franco ao poder.  Em 36, Lorca foi preso e executado após julgamento sumário pelos facistas no poder da Espanha em Granada – por ordem de um deputado católico.  Foi preso sob o argumento de era mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver. Era agosto de 1936. Levou um tiro na nuca (ou pelas costas, em alusão à homossexualidade) e seu corpo foi desaparecido na Serra Nevada.
Engraçado perceber: os seguidores de um justo condenado à morte injustamente – torturado barbaramente – fazem igual aos outros (o personagem da canção, os Zumbis Ganga e Lumumba, Lorca).

Grampearam o menino do corpo fechado
e barbarizaram com mais de cem tiros.
Treze anos de vida sem misericórdia
e a misericórdia no último tiro.

Morreu como um cachorro e gritou feito um porco
depois de pular igual a macaco.
Vou jogar nesses três que nem ele morreu:
num jogo cercado pelos sete lados.

 
Com direito a um tiro de misericórdia no moralismo da direita religiosa cristã em nosso país – em que se matam homem, jovens, pobre, moradores das periferias, negros, gays.  Poetas, sonhadores, lutadores.  Um país em que a branquitude ainda mata #GenteDiferenciada.
Por que nos abandonamos
em cada cruz?

 

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