Londres em chamas: Desemprego e decadência urbana explicam revolta na Inglaterra

Posted on 14/08/2011

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Do UOL:
Luiz Felipe de Alencastro
Com várias noites de violência, cinco mortos, comoção nacional e prejuízos que ultrapassam 200 milhões de libras, os tumultos urbanos na Inglaterra começam a ser comparados às insurreições que sacodem a França de maneira recorrente.
De fato, tomando somente os últimos dez anos como referência, houve insurreições graves nos subúrbios e nas cidades francesas em 2003, 2005, 2007 e 2010. Sem contar incidentes isolados. Assim, calcula-se que 350 carros são incendiados por vândalos todas as noites na França. Alguns especialistas apontaram as semelhanças e as diferenças entre as sublevações nos dois países.
Do lado das semelhanças há o detonador que, tanto na França em 2005 e 2007, como agora na Inglaterra, originou-se num enfrentamento em que a polícia, voluntária ou involutariamente, causou a morte de um jovem vivendo numa zona urbana desleixada pelos poderes públicos. Em seguida, há também a reação dos governantes e da maioria da mídia que, na França de ontem e na Inglaterra de hoje, negam prontamente a responsabilidade policial e o mal-estar social dos jovens.
Na Inglaterra, o primeiro-ministro David Cameron declarou, ao abandonar suas férias na Itália para vir cuidar da crise e dos tumultos em Londres, que isto é “criminalidade, pura e simplesmente”. Enquanto isso, o vice-primeiro-ministro Nick Clegg alegava que os protestos nas ruas “não tinham nada a ver”, com a morte de Mark Duggan, de 29 anos, abatido pela polícia em Totenham, um bairro pobre e multiétnico de Londres. Tais declarações das autoridades revoltam jovens que se identificam com a vítima e provocam mais incidentes. Enfim, tanto na Inglaterra como na França, o panorama de degradação social influencia os acontecimentos.
De fato, por trás das revoltas há o desemprego, a decadência de áreas urbanas, a falta de perspectivas para jovens saídos de famílias europeias modestas ou de comunidades de imigrantes instalados na França e na Inglaterra. Este último ponto, levou a extrema-direita — e não só ela — a atribuir a responsabilidade dos tumultos às minorias étnicas e aos estrangeiros.
Na realidade, os processos dos envolvidos na baderna em Londres têm mostrado que a esmagadora maioria dos acusados tem a nacionalidade britânica. A mesma constatação foi feita na França em 2005 e 2007: os condenados por vandalismo eram majoritariamente franceses. Aliás, mesmo quando são estrangeiros na Inglaterra, muitos dos acusados são cidadãos de outros países da União Europeia. Dispondo assim de livre acesso e estadia no território inglês.
No final das contas, as razões mais profundas do mal-estar social e das revoltas parecem residir na falta de cuidado e diálogo das autoridades locais com as comunidades de jovens deixados de lado pelo mercado de trabalho e pelos serviços públicos. Segundo estudos feitos sobre os motins franceses de 2005 e 2007, nas cidades suburbanas onde os vereadores, os representantes sindicais, comunitários e os serviços públicos e culturais tinham presença ativa, a situação social não se alterou. Nestas cidades, a participação eleitoral continuava sendo elevada, mesmo tomando em conta o fato de que o voto não é obrigatório. Ao contrario do que ocorria em cidades vizinhas, desprovidas deste tecido social e atingidas por distúrbios generalizados. Indo mais longe, muitos especialistas apontam o declínio dos sindicatos e dos partidos políticos de extração popular como um dos fatores que contribuem para a eclosão de revoltas urbanas movidas pela violência.
De todo modo, a Inglaterra é agora o teatro de uma discussão de editorialistas, universitários e homens políticos que debatem este ponto essencial: como explicar e solucionar o mal estar social que suscita estas revoltas? No “Guardian”, diário londrino de centro-esquerda, um editorialista escreveu: “o que nós estamos vendo agora nas ruas da cidades da Inglaterra é o reflexo de uma sociedade tomada pela estupidez, e um fracasso perigoso da política e da solidariedade social”.
No meio da discussão, reapareceram os comentários sobre o primeiro estudo feito pela Unicef, a agencia da ONU especializada na infância, sobre as crianças dos países desenvolvidos do Ocidente (acessível online aqui). Num artigo cuja primeira versão foi publicada em 2007 e que circula atualmente pela blogosfera (acessível aqui), Maria Hampton comenta as conclusões do relatório na parte referente ao Reino Unido. Em quase todos os itens, o relatório mostra que os jovens ingleses estão num processo de “deseducação”, bebendo quatro vezes mais que os jovens italianos e possuindo o maior índice de mal-estar subjetivo dentre os jovens de todos países estudados.


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