O valor da paternidade

Posted on 14/08/2011

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Duas semanas atrás, no domingo dia 31 de julho, publiquei este texto.  Hoje, Dia dos Pais, cometo a gafe de republicá-lo.  Meus poucos leitores vão entender minha homenagem a esta data.
Hoje Alice pintou um coração que a mãe desenhou em um cartão para mim.  Depois, a avó perguntou o que ela tinha me dado pelo Dia dos Pais: Coração, disse Alice.

Não serei eu que vou julgar ninguém.  Sei que cada um tem sua formação pessoal, sua alma, seus sentimentos, sua personalidade.
Alguns de nós são mais insensíveis – ou demonstram sê-lo.  Por quais razões, não me cabe enumerar.  Já fiquei muito chateado pela falta de sensibilidade de alguém, não necessariamente comigo.  Nem falo de compaixão ou coisa que o valha.  Falo às vezes da sensibilidade de alguém que se preocupa em ligar para saber se um amigo doente ficou melhor – ou, mais sério, preocupa-se em permitir que alguém querido tenha tempo de se despedir de um amado, internado, terminal, em um leito hospitalar.
Já vi alguém dizer a um filho que acabara de saber a morte de seu pai – ausente na vida e havia uma semana numa UTI – que não precisava correr [para o velório], nada mais podia ser feito e ele, afinal, tinha sido um péssimo pai,  Terrível insensibilidade com o luto do outro.  Um luto recente.  Mas por que alguém seria insensível assim?  O que o levou a esse ponto?  Julgar seria fácil, compreender bem difícil.
Com todas essas ressalvas, penso em algo que minha filha me disse espontaneamente mais cedo.  Deitei ao lado dela: – Te amo!  Ela tem um ano de oito meses.  Antes que começasse a sua fala muito particular – antes de articular suas palavras -, o Te amo era um olhar.  Um doce olhar cheio de afeto e traduzindo sua  tanta segurança de que só meus olhos, braços, beijos e respiração ao seu lado eram suficientes para ela se sentir plena.

Nos dias de hoje, ela morre de medo de um macaco que comprei, ao seu lado, em uma livraria do Galeão, quando voltamos do Rio mês passado.  Veio me falar de seu medo na cama no início da tarde.
 Vá lá que vou proteger você do macaco.
Antes que eu chegasse, ela se dirigiu ao macaco, desligado ao lado da mãe, apontou-lhe o dedo na cara e falou de seu pai.  A gente só entendeu o macacopapaiproteger e medo.  Estava ousada gritando com o macaco e colocando-lhe no seu lugar.  E tudo começou naquele olhar protetor da primeira vez que a pus para dormir.
Em que pese todas as questões sócio-econômicas envolvidas, quanto mais eu vivencio essa nova forma de amor com minha filha, me questiono como ser possível alguém virar as costas para um filho.  Ainda mais na mais tenra idade.  Naquele momento em que tudo o que ele precisa é de um olhar para dar segurança, proteção.  Naquele momento que basta ouvir a batida do coração do pai para se acalmar.  Naqueles dias, em que nada funciona, a não ser a sua voz.  Como é possível a alguém abandonar um filho?  Deixar de estar presente em sua vida?  Deixar de protegê-lo quando necessário?  Não se dar ao direito de amá-lo nem ter o prazer de ouvir, doce e baixinho, por trás da chupeta: te amo.
Ano passado tive uma apendicite.  Fui internado numa sexta, operado num sábado e só voltei de casa na segunda.  Alice tinha seis meses apenas.  Nunca tinha me afastado dela – a não ser para ir trabalhar.  Ela sentia minha falta e o que era pior era sua incapacidade de expressar isso aos seis meses.  Quando cheguei em casa, ela dormia no berço no fim da manhã.  Eu não tinha feito a barba nos últimos três dias. Falei com Alice.
– Alice, filha.
Ao ouvir minha voz, abriu os olhos e seu corpo estremeceu inteiro – numa emoção que eu nunca tinha visto antes.
Não perderia a emoção de ouvir um te amo de minha filha por nada.  E tenho dificuldades grandes em entender – sempre que vejo notícias assim – como é possível que alguém vire suas costas para um filho.  Uma escolha de muitas perdas – perdas de todos os lados e para todos.
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