Racismo: Neofascistas decretam pena de morte

Posted on 04/10/2011

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Por João Negrão
No Blog da Maria Frô

A pena de morte está estabelecida no Brasil. Pelo menos em Cuiabá, capital do estado de Mato Grosso. Lá, não foram os legisladores, não foram vereadores ou deputados estaduais que a votaram, até porque eles não têm competência para tal legislação. Essa nova lei, no entanto, foi decreta pelos neofascistas, que conseguem arrastar para suas opiniões até gente de formação humanística, no entanto vacilante.

Os neofascistas tomaram conta – ou tentam assaltar – a opinião pública de Mato Grosso. Decretaram que um ser humano deve morrer por ter cometido supostos crimes. Sem julgamento, sem o mínimo de clemência. Decretaram que o africano de Guiné-Bissau Toni Bernardo da Silva, estudante de Economia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) é um bandido e por isso mereceu morrer.

A pena de morte decretada pelos neofascistas não deve ter execução pela forca, nem por doses cavalares de veneno em suas veias, nem na cadeira elétrica e muito menos por fuzilamento. A morte deve ser por pontapé na traquéia, o golpe mortal depois de uma sessão de espancamento. Este é o padrão de morte das vítimas da intolerância.


Invertendo toda a lógica da civilização, os neofascistas decretam a morte e depois fazem o julgamento: o Toni mereceu morrer porque:

– Tem passagens pela polícia – Quais passagens, o que ele cometeu? Até agora ninguém especificou quais passagens e quais crimes ele cometeu;

– É ladrão de botijão de gás – mesmo que a acusação seja infundada e que ele tenha sido tirado das garras da polícia que o prendeu pela própria Polícia Federal;

– Discutiu com a namorada – cadê o BO, ele a agrediu, tem depoimento dela, quem era ela? A única ex-namorada com a qual eu sei que o Toni teve desentendimentos foi a mesma pessoa que o introduziu ao crack e tirou tudo do pouco que ele tinha;

– Foi expulso da UFMT por envolvimento com drogas e “má conduta”, segundo a própria instituição. O envolvimento com crack é fato, mas a má conduta fica por conta de quem não quer ter responsabilidade por aqueles que deveriam ajudar cuidar. Qualquer professor ou colega do Toni na UFMT, assim como nas empresas e instituições que ele estagiou,
pode testemunhar a sua boa índole.

– Está ilegal no Brasil. Todos que acompanharam seu caso sabem que o Toni ainda estava tentando retornar à UFMT para concluir o curso e voltar para seu país. Os amigos, colegas e alguns de seus professores tentaram de tudo para que ele fosse ao tratamento e concluísse o curso.

– Tentou assaltar a mulher de um de seus assassinos. Versão, aliás, que surge agora, 11 dias depois do assassinato. Por que essa versão não foi apresentada logo após o ocorrido? Por que só agora, quando aparece a imagem de uma das câmeras da pizzaria Rola Papo? Aliás, imagens sem muita definição e que não dizem muita coisa, a não ser o fato de que o Toni foi mesmo espancado até a morte. Cadê as imagens das outras câmeras? As imagens foram periciadas?

Pois bem, diante de todos os “crimes” cometidos acima, ficou decretado: o Toni mereceu morrer. Nada de estado de direito democrático. Nada de civilização. Esses neofascistas quem o retorno à barbárie.

O homem evoluiu para a civilização depois de milhares de anos vivendo a barbárie. Ao longo do desenvolvimento da Humanidade, entre altos e baixos, a sociedade humana foi criando mecanismos para torná-la mais civilizada. Em muitos aspectos ela conseguiu. Em outros ainda estamos nos estrebuchando para nos tornamos civilizados.

Um dos avanços da humanidade é o estado democrático de direito, sob o qual qualquer ser humano merece ter julgamento justo para depois, se for comprovada a culpa, ser condenado. E condenado conforme as leis do país e com pena equivalente ao crime que cometeu.

Para os neofascistas de Cuiabá isto tudo é letra morta. Como disse, eles invertem a lógica civilizatória. Além de condenar uma pessoa à pena de morte que não existe oficialmente em nosso país, essas pessoas (?) concordam com a morte antes do julgamento.

Para os neofascistas nem a lei de Talião vale. O Código de Hamurabi para esses indivíduos é fichinha. Se o “dente por dente olho por olho” era praticado há quase 4 mil anos atrás, hoje, em pleno século 21, os neo-fascistas de Cuiabá querem mais horror e barbárie.

Há quatro tipos de gente que propagam, se convencem e ajudam a propagar a tese que sustenta a estratégia de defesa dos assassinos, a de que o Toni era um bandido e por isso mereceu morrer. Vamos a eles:

1 – Os familiares e advogados.

Estes estão fazendo o papel deles. Abominável, diga-se, mas é direito deles. É compreensível que queiram encontrar uma linha de defesa para os assassinos. Mas é lamentável que se apeguem à desqualificação do morto, um padrão, aliás, para estes casos indefensáveis.

Estes não me assustam. Ao contrário: tenho até penas das mães e pais dos rapazes que mataram o Toni. Fico imaginando como o coração deles devem estar estraçalhados e o conflito que suas consciências devem estar passando. Fico imaginando como estariam sentindo suas esposas, namoradas, filhos e amigos. Sem falar no mal-estar que eles provocaram em todos e nas dificuldades morais e materiais que estão tendo para administrar essa tragédia para eles, do ponto de vista deles.

2 – Os venais.

Estes são aqueles, inclusive jornalistas, que estão comprando (e vendendo) a estratégia da defesa de desqualificar o Toni e transformá-lo em bandido. Estes são vis, repugnantes, inescrupulosos e suas próprias vidas pessoais e profissionais se encarregarão de julgá-los mais tarde. Tenho vergonha de ter convivido com alguns deles.

3 – Os inocentes úteis.

Estes são pessoas de bem, conscientes até de suas condições de cidadãos, mas que não estão imunes ao martelar do mantra: “O Toni é um bandido e merecia morrer”. São vacilantes quanto a justiça, mas decisivos a encontrar desculpas para seus próprios desvios e de seus pares.

Uma pessoa pela qual nutro um grande carinho me perguntou pelo Facebook: “João, e se o Toni for culpado?”. Esta é a pergunta que os inocentes úteis fazem. Este meu amigo, quero crer, não me parece se enquadrar no perfil seguinte, mas adota todas as idéias dos neofascistas.

4 – Os neofascistas.

Estes são os perigosos. Os neo-fascistas querem a morte, querem o fígado, a destruição de tudo que não se enquadra no padrão que eles consideram ser o de vida ou estético. Os neo-fascistas mais que defendem a pena de morte: eles querem a eliminação física de tudo que não lhes são agradáveis. E sumariamente. Mais ainda: eles se divertem com o sofrimento de seus desafetos gratuitos.

Os neofascistas não são um fenômeno de Cuiabá. Nem do Brasil. Os neofascistas são um fenômeno mundial , que cresceu e vem se fortalecendo depois da implantação do neo-liberalismo. Esta nova geração é a geração pós implantação do neoliberalismo, no início da década de 80. Podem fazer as contas: são rapazes e moças com menos de 30 anos, especialmente.

O neoliberalismo, esta fase do capitalismo que aprofundou o egoísmo, a competição desenfreada e a intolerância, está nos seus estertores e tem como contestadores parte da mesma juventude que ele ganhou para sua ideologia do individualismo e da intolerância. Tudo emoldurado por um consumismo desenfreado e a prevalência de valores e crenças maléficas, contrapondo a fraternidade, o altruísmo e a solidariedade.

É cada vez mais comum frases que ganham as pessoas como: “Cada um com seus problemas” ou “O problema é seu, você que fez suas escolhas”.
Vejo isto como um egoísmo atroz. São comportamentos disseminados pelos meios de comunicação, pela propaganda, pelo cinema, pela televisão e, pasmem, até por escolas e igrejas.

É triste ver jovens com pensamentos tão reacionários e egoístas do nosso lado. São amigos, filhos de amigos, sobrinhos, amigos de filhos e filhas, colegas de trabalho. Já trabalhei com estagiários que afirma sem nenhuma cerimônia: “não gosto de pobre”. Não são poucos eles. Não são poucos o que pensam que “bandido bom é bandido morto”, que não se importam com o racismo e se dizem não-racistas porque têm “amigo” negro; que não são homofóbicos porque têm “amigo” ‘bicha’. Mas são esses os primeiros a fazer piadas e ridicularizar negros e homossexuais.

No meio dessa juventude sem rumo é que as idéias fascistas vão ganhando corpo e costumam se manifestar nesses momentos de contradições, como o do assassinato do Toni. Esses momentos são divisores de água. É neles que ficamos sabendo de fato que é quem, quem pensa o quê e com quem podemos contar para a construção de um mundo melhor.

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