Confiante na vitória, Manuel Zelaya aposta em nova era com eleição em 2013

Posted on 14/10/2011

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Deposto por um golpe de Estado em junho de 2009, o ex-presidente de Honduras Manuel Zelaya prepara-se para reassumir um papel protagonista no cenário político do país centro-americano. De volta à sua terra natal desde 28 de maio deste ano, ele coordenou a articulação de diversos movimentos populares que ajudaram na fundação do Libre (Liberdade e Refundação), partido que estará presente nas próximas eleições, em 2013.
 


Braço político da FNRP (Frente Nacional de Resistência Popular), o Libre fica órfão da palavra “resistência”, termo que deu forte identidade ao movimento social surgido espontaneamente como reação ao golpe.

A assembleia geral da FNRP teve de mudar de nome outras duas vezes – primeiro, chamava-se FARP (Frente Ampla de Resistência Popular), e depois, PRP (Partido da Resistência Popular). Isso ocorreu porque as palavras “Frente Ampla” e “Resistência” já haviam sido registradas no TSE (Tribunal Supremo Eleitoral) local por outras forças políticas. Para Zelaya, coordenador do FNRP, esta não foi uma decisão fácil, mas acredita que o povo terá maturidade para compreendê-la.

Em entrevista exclusiva ao Opera Mundi, Zelaya abordou temas que provocam intensos debates na história recente de Honduras: as expectativas eleitorais, a necessidade de passar da luta social à luta política, a relação entre a Resistência e o novo partido e o silêncio internacional perante reiteradas violações do Acordo de Cartagena.
Liberdade e Refundação. Por que estas palavras?
A liberdade é uma utopia na qual mergulhamos. Ela rompe a corrente que nos oprime e é uma aspiração pessoal e coletiva. E queremos a liberdade mas, para sermos livres, temos de refundar a pátria.

Para além do golpe de Estado, a proposta política da FNRP surge de uma demanda histórica do povo. Ela tem raízes profundas, e se posiciona contra a desigualdade, a pobreza e a violência do sistema neoliberal e do capitalismo sem limites. O povo amadureceu e está pronto para promover a transformação do país.

Como refundar a pátria? Convocando uma Assembleia Constituinte, que foi a proposta da FNRP, ou por instrumentos constitucionais que já existem?
Em Honduras sempre se debate sobre como administrar o modelo e nunca sobre a estrutura de poder que determina esse tipo de administração. O poder não se discute nunca.

Durante meu governo, tratei de promover mudanças consultando o povo sobre a Constituinte, e me deram um golpe de Estado. Neste sentido, o termo “refundação” vem do conceito: voltar a conceber os fatores de poder no contexto da correlação de forças do país.

O povo se apoderou deste conceito e é um novo ator na correlação de forças em Honduras. Agora, ele quer decidir assuntos de importância nacional. Não para tirar do capital, mas para distribuir melhor a riqueza e reduzir a pobreza.

A reforma constitucional continua prioridade para o novo partido?
Precisamos fazê-la para elaborar um novo poder constituinte no país. O Partido Nacional fez a mesma reforma constitucional que propus em meu governo, e agora deveria convocar uma Constituinte. Isso permitiria a recomposição do pacto social rompido pelo golpe. Se não querem fazê-lo, nós o faremos depois de 2013, quando formos governo.

Quais forças vão formar o Libre?
Reservamo-nos o direito de não aceitar pessoas que estão de acordo com a violência do golpe. Mas não recusamos os que se arrependeram verdadeiramente do que fizeram. Já perdoamos nossos detratores e avançamos rumo à reconciliação. Não queremos vingança, e sim justiça, e vamos fazê-la nas urnas.

Que peso terão no novo partido os liberais não comprometidos com o golpe?
Vai depender do povo. Se as pessoas, os líderes e os dirigentes que serão propostos ao povo não representarem os interesses bastardos das elites que dominam o país, acredito que terão o respaldo popular para empreender as transformações de que Honduras precisa. Todos vão se submeter ao escrutínio popular, para que o povo possa escolher quem o dirigirá e conduzirá na luta contra o Partido Nacional, a oligarquia e o tradicionalismo.

Também contra o Partido Liberal?
Contra tudo o que representa o tradicionalismo. Não importa a ideologia dos dirigentes, mas eles devem ter uma conduta diferente da tradição, e sua visão política deve estar comprometida com a luta pacífica, democrática, com um profundo compromisso social.

O senhor acredita que os setores que promoveram o golpe estarão dispostos a aceitar um governo do Libre?
Não haveria outro caminho a não ser reconhecer a vitória. Se eles interromperem um processo político eleitoral, o mundo lhes fechará novamente as portas.

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Em diversas ocasiões, o senhor apontou a participação dos Estados Unidos no golpe. Acredita que o país vai intervir neste novo processo político?
Eles sempre se intrometem e sabemos que os países como Honduras são protetorados norte-americanos, ocupados economica e militarmente. Não podemos negar sua presença e devemos nos sentar com eles para lhes explicar que precisamos que suas grandes transnacionais deixem de promover golpes de Estado e violência. Honduras precisa se refundar e eles têm de entender isso.

Qual é a relação entre a FNRP e o Libre?
É o mesmo sujeito. O Libre é apenas o braço político da FNRP, que dirige a intenção do povo de se organizar. Por trás de todo o processo está o povo. A oligarquia quer semear a discórdia ao dizer que há uma divisão entre estas duas forças.

Na Resistência, há muitas pessoas que, por ingenuidade, caem neste erro. Dizer que é incorreto ir às eleições significa participar do jogo da oligarquia e do império. Mas o povo quer participar da política, tomar o poder para conseguir mudanças estruturais.

E quanto à luta social empreendida nestes anos?
Porfirio Lobo está no governo há quase dois anos e a luta social não deu resultados. O que obtiveram professores, operários e camponeses com a luta nas ruas? Praticamente foram privados de suas conquistas históricas. Isso demonstra que a resistência e a luta social são boas, mas têm limites e não resolvem o problema. Na verdade, tivemos retrocessos. O poder político de um governo comprometido é o caminho para resolver os problemas.

Também não haverá diferenças em termos de estrutura?
Já foram aprovados os estatutos do partido e toda a estrutura da FNRP vai se submeter à eleição. O povo decidirá quem vai conduzir a última fase da luta contra a oligarquia e os partidos tradicionais. A partir do momento em que o partido se inscrever haverá uma só estrutura, mas isso não quer dizer que a luta política abandonará a luta das massas, e sim que vai avaliá-la e apoiá-la.

Há pessoas que não acreditam nas lutas políticas, pois elas as obrigam a se relacionar com os verdadeiros atores do país e a reconhecê-los. Temos de participar para derrotá-los pacificamente nas eleições. Deixar o poder para a oligarquia seria fatal.

Quatro meses depois da assinatura do Acordo de Cartagena, o senhor considera esta decisão foi acertada?
Ninguém pode opor-se a um processo de reconciliação. É por isso que as pesquisas mostram que 80% da população é favorável ao acordo. Mas o fato de ele ser cumprido ou não depende de outros fatores.

Lutamos para que eles sejam respeitados, porque a violação dos direitos humanos continua, os julgamentos são parciais, a representação de direitos humanos da ONU não chegou ao país e continuamos reclamando nosso direito à reconciliação.

Honduras reingressou ao cenário internacional, mas ninguém fala do que está acontecendo no país. O Acordo de Cartagena era a peça que faltava para a ‘lavagem’ do golpe?
O golpe não foi lavado. A Comissão da Verdade disse que foi um golpe e o condenou. Assinei como ex-presidente e Porfirio Lobo como presidente surgido de eleições que impugnamos. Dizer que não reconhecemos seu governo seria negar uma realidade, porque o governo existe.

A Resistência continua desconhecendo sua legitimidade.
A Resistência foi coerente do início ao fim. Com o acordo, nos ofereceram eleições e a inscrição do partido, e aceitamos. No começo, a Resistência queria derrubar o sistema de fora para dentro. Como não foi possível e muitas das conquistas obtidas no passado começaram a se perder, decidimos entrar no sistema e combatê-lo a partir de dentro.

Espero que, em 2013, a sabedoria popular e a conduta desta nova força política marquem o início de uma nova era, não utópica, de falsas ilusões, mentiras e demagogias, mas de realidades. À medida que a campanha (eleitoral) avançar, enfrentaremos todos. Especialmente a CIA (agência de inteligência norte-americana), que vêm nos difamando para dividir o país, tal como fizeram com o golpe.

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