Os indignados e as sociabilidades da cibercultura

Posted on 16/10/2011

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Pouco mais de dez anos atrás, quando eu morava em Fortaleza, pela primeira vez eu vi uma página do mIRC. Juro que achei tudo muito confuso. Até então minha interação na Internet se resumia a e-mails e bate-papo no UOL e na Globo.com.

Em poucos anos, usei o ICQ e, de lá, fui para o MSN Messenger. Os chats dos sites foram sendo deixados de lado. Minha relação com esse mundo mais propriamente cibercultura era feito na interação discada com sites, com o messenger e por e-mail.

É mais ou menos nessa época que eu começo a ler Pierre Lévy. Começo a entender que as formas de comunicação que estou descobrindo na Internet são formas rizômicas. A rede de redes, que é a Internet, constrói seus nós sem centros e a produção de conteúdo, de informação e a emissão de opiniões circula de forma mais ou menos sem controle nesse universo sem borda, sem margem, sem núcleo.

Evidente que alguns hubs conseguem se estabelecer e que eles terminar por reforçar, enquanto se apropriam, os centros de formação de opinião, informação e decisão do mundo offline. Não à toa o site mais acessado no país pertence ao jornal impresso de maior tiragem.

Mas fora esse parêntese, em potência, a Internet subverte o pólo de produção e de emissão, permitindo que qualquer um, inclusive eu, possa me tornar em produtor de conteúdo e informação na rede.

Essa rede se auto-desenvolve, estabelece novas formas de auto-gestão, e retro-alimenta enquanto recebe insumos de todos os seus membros: estar na Internet de forma efetiva é gerar conteúdo enquanto acessa seus conteúdos.

Lévy defendia, ainda nos anos 90, que a cibercultura iria estruturar novas formas de conhecimento e uma distribuição de papeis sociais e tarefas a partir das competências da rede. Assim, se eu viesse a ser reconhecido em minha competência jornalística por alguns dos seus membros eu terminaria alcançando maior relevância como referência de conteúdo neste sentido.

Em outras palavras: nas sociabilidades desenvolvidas em rede, cada membro traz para essa forma de inteligência coletiva suas competências, suas produções, que são validadas e reconhecidas pelo todo coletivo. Desse modo, ocorrem os avanços e o conhecimento se difunde, se renova e se amplia. Sem centro, sem hierarquias, sem normas tão rígidas. Cada um entra com o que pode oferecer à rede. A rede se estrutura e fortalece com isso – respaldando a produção e atribuindo a importância e a força que sejam relevante para a construção dessa inteligência coletiva.

Confesso que eu sempre tive muita dificuldade em acreditar nessas teses. Mas é possível perceber como a própria evolução dos mecanismos de interação – desde o mIRC até o Twitter -, serviu para consolidar e confirmar esse processo. Ainda que acham grandes hubs nas redes sociais, consolidados pela sua vida fora da rede (estrelas de cinema, esportistas, políticos), qualquer um pode se tornar relevante e influente a partir de suas próprias competências. E cada um entra para formar esse vasto organismo social internético com seus conhecimentos e competências – gerando conteúdo e informação a partir do que pode ofertar nesse sentido.

A Inteligência Coletiva já proposta por Lévy, as novas sociabilidade das sociedades em rede, eram sem centro e colaborativas. Construídas de maneira coletiva, integral, social, participativa. Rizômica e reticular, essa inteligência se constitui a partir das ações de partilhamento e participação de cada indivíduo membro do todo. São sociabilidades mais globais, gregárias, plurais, diversas e coletivas.

A grande mudança política que os movimentos dos indignados aponta no mundo todo é que eles se dão para além dos partidos políticos. Esses movimentos materializam no mundo atual, concreto, as estruturas inovadoras dessa Inteligência Coletiva da cibercultura. Por isso, suas vitórias não podem ser medidas a partir do crivo das ações políticas e partidárias, inclusive eleitorais, do século XIX e do século XX. Por isso, nem perspectivas liberais, nem comunistas dos séculos passados darão conta de explicar o que é esse movimento. O modelo de racionalismo moderno que subjaz aos modelos sócio-políticos citados não são suficientes para a compreensão desse rastilho de pólvora inédito que começou a queimar na Tunísia e hoje queima o mundo todo. Sua grande vitória é apenas existir. Representa o novo mundo que se desenha nessa nossa contemporaneidade.

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