EUA sabiam que estavam ajudando traficante de drogas em Honduras

Posted on 31/10/2011

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Do Opera Mundi

Desde 2009, sem que a comunidade internacional percebesse, o governo golpista de Honduras vem colaborando com latifundiários abastados em uma violenta repressão contra pequenos agricultores que lutam por seus direitos à terra no vale Aguán, na região nordeste do país. Mais de 46 camponeses foram assassinados ou desapareceram. Os grupos de defesa dos direitos humanos denunciam que muitos dos assassinatos foram cometidos pelo exército privado de guardas de segurança empregados por Miguel Facussé, magnata dos biocombustíveis. Os guardas de Facussé trabalham em íntima colaboração com os militares e a polícia de Honduras, que recebem um generoso financiamento dos EUA para conduzir a guerra contra as drogas na região.

Novos telegramas do WikiLeaks revelam agora que a embaixada dos EUA em Honduras – e portanto o Departamento de Estado – sabe desde 2004 que Miguel Facussé é um importador de cocaína. Em outras palavras, a “narcoguerra” dos EUA é usada para treinar e apoiar a guerra de um conhecido narcotraficante contra os camponeses.
Miguel Facussé Barjum é, segundo a embaixada, “o empresário mais rico e mais poderoso do país”, um dos “pesos pesados políticos” do país. O New York Times o descreveu recentemente como “o octogenário patriarca de um punhado de famílias que controlam grande parte da economia de Honduras”. O sobrinho de Facussé, Carlos Flores Facussé, foi presidente de Honduras de 1998 a 2002. A corporação Dinant de Miguel Facussé é uma importante produtora de óleo de palma, fast-food e outros produtos agrícolas. Foi uma das partidárias fundamentais do golpe militar que derrubou o presidente democraticamente eleito Manuel Zelaya em 28 de junho de 2009.
A base do poder de Miguel Facussé está no baixo Vale do Aguán, onde os camponeses se estabeleceram originalmente nos anos 1970 como parte de uma estratégia de reforma agrária do governo hondurenho que fomentou centenas de cooperativas e coletivos camponeses bem-sucedidos na região. Desde 1992, no entanto, os novos governos neoliberais começaram a promover a transferência de suas terras a elites endinheiradas, que correram para aproveitar o apoio estatal para intimidar e obrigar os camponeses a vender suas terras e, em alguns casos, para adquirir terras por meio de uma fraude evidente. Facussé, de longe o maior beneficiário dessas políticas estatais, agora reivindica pelo menos 8.900 hectares no baixo Aguán, pelo menos um quinto de toda a região, e cultivou grande parte com palmas africanas para um império de biocombustível em plena expansão.
Enquanto isso, a qualidade de vida dos camponeses da região caiu dramaticamente. Em dezembro de 2009, milhares de camponeses organizados começaram a realizar recuperações coletivas de terras no baixo Aguán que, segundo eles, lhes foram roubadas, ou prometidas legalmente pelo governo por meio de acordos prévios ou decretos.
Os esforços dos camponeses foram enfrentados com rápidas e brutais represálias. Segundo o Cofadeh (Comitê de Famílias de Detidos e Desaparecidos de Honduras ), um grupo independente pró-direitos humanos altamente respeitado, pelo menos 44 pessoas foram assassinadas, 16 só no último verão. As vítimas incluem dirigentes de grupos como o Muca (Movimento Unificado dos Camponeses de Aguán), que participa de ocupações de terras, mas também membros de comunidades estáveis que existem na região há décadas, como Guadalupe Carney, Rigores ou Prieta, cujos moradores acreditavam possuir títulos seguros de propriedade de suas terras. Segundo uma declaração na qual o grupo Human Rights Watch pede uma investigação, ninguém foi preso nem processado por nenhum desses assassinatos.
Muitos desses assassinatos e ataques foram atribuídos a guardas de segurança privados de Miguel Facussé, assim como seus associados. Os capangas andam à paisana ou com uniformes do Grupo Dinant e afirma-se que são entre 200 e 300. O próprio Facussé admite que, em 15 de novembro de 2010, seus guardas mataram a tiros cinco camponeses do Muca na comunidade El Tumbador. Um informe de julho de 2011 sobre as matanças de camponeses no Aguán feito por uma missão investigadora do Conselho Mundial de Igrejas, Foodfirst Information and Action Network (Fian) International e outros grupos internacionais afirma: “Em todos os casos, segundo testemunhas e membros dos movimentos de camponeses, os guardas de segurança que trabalham para Miguel Facussé e René Morales são considerados os principais protagonistas”, inclusive nas mortes de três membros do Muca em 17 de agosto de 2010.
Os supostos assassinatos e ataques armados de guardas de Facussé continuam. Afirma-se que, em 5 de outubro, os guardas de segurança de Facussé atacaram a tiros e feriram gravemente dois membros do Muca na comunidade camponesa de San Isidro, segundo a Fian. Em 11 de outubro em La Aurora, informam a Fian e outros grupos de direitos humanos, pelo menos seis guardas de segurança de terras revindicadas pela Corporação Dinant de Facussé, ao lado de policiais e forças militares, mataram a tiros Santos Serfino Zelaya Ruiz, de 33 anos, e abriram fogo contra 15 mulheres que repartiam sal, e que se esconderam durante horas entre as palmas.
Em 8 de janeiro de 2011, o ativista opositor e jornalista Juan Chinchilla foi sequestrado no vale do Aguán, torturado e interrogado. Escapou dois dias depois e informou em uma entrevista que seus sequestradores “vestiam quase todos uniformes do exército, da polícia e de guardas privados de Miguel Facussé”.
Grupos de direitos humanos do mundo todo têm denunciado os ataques de Facussé contra os camponeses hondurenhos. Em 8 de abril, o banco alemão de desenvolvimento DEG (Deutsche Investitions und Entwicklungselleschaft mbH) anulou um empréstimo de 20 milhões de dólares à Dinant depois de investigar a situação. Uma semana depois, a EDF, uma importante corporação energética francesa, anunciou a anulação de seus planos de comprar créditos de carbono da Dinant.
Facussé tem respondido agressivamente em sua defesa com anúncios de página inteira. Também entrou há pouco tempo com uma ação judicial por difamação contra o bispo hondurenho Luis Alfonso Santos e Andrés Pavon, presidente do conhecido Comitê para a Defesa dos Direitos Humanos (Codeh).
Paralelamente aos assassinatos e desaparecimentos de ativistas individuais, a polícia e os militares hondurenhos lançaram, durante o último ano e meio, sucessivas ondas de repressão contra comunidades camponesas inteiras, tanto assentadas em novos locais ocupados quanto outras estáveis, com um status legal a longo prazo. Em 15 de dezembro de 2010, entre 500 e 1.000 policiais e militares cercaram a pequena localidade camponesa de Guadalupe Carney com franco-atiradores e helicópteros e realizaram buscas casa a casa para encontrar supostas armas, que nunca apareceram. Os soldados ficaram acampados no centro do povoado desde então. Em abril de 2010, 2.000 policiais e militares hondurenhos ocuparam todo o vale do baixo Aguán, controlando o acesso e intimidando os moradores.
A situação piorou desde maio e continua se agravando. Cinco guardas de segurança, um policial e outros cinco homens, além de 16 camponeses, morreram. A região está novamente ocupada por 1.000 soldados em uma operação militar batizada de Xatruch II, destinada a combater guerrilheiros armados de cuja existência não existe nenhuma prova. Tampouco se apresentaram evidências que vinculem os camponeses com as outras mortes.
Em geral, a ocupação e a repressão no baixo Aguán chegaram a proporções aterradoras. “Com a militarização Xatruch II, tratam de transformar nossa região num Iraque”, acusadam o Cofadeh e o Muca. “Nossos assentamentos estão submetidos a um estado de sítio permanente.”
Em 24 de junho, apenas uma hora depois de dar o aviso, a polícia incendiou quase toda a comunidade de Rigores, de mais de 100 casas e dez anos de existência, e demoliu suas três igrejas e sua escola de sete salas de aula. Os moradores começaram a reconstruir suas casas com lonas e madeira, mas, entre 16 e 18 de setembro, como resposta à morte de um policial próximo, a polícia invadiu o povoado, agarrando e prendendo pessoas indiscriminadamente, incluindo crianças. Um dos detidos era um garoto de 16 anos que testemunhou que os policiais lhe puseram um saco na cabeça, o molharam com gasolina e ameaçaram matá-lo. Em 20 de setembro, policiais e militares expulsaram com sucesso todos os que permaneciam na comunidade.
Numerosas testemunhas presenciais e grupos de direitos humanos informam que os guardas privados de Facussé, policias e militares participaram conjuntamente dessas violentas expulsões e das mortes associadas a elas: em El Tumbador em 15 de novembro de 2010; em Guadalupe Carney em 15 de dezembro de 2010; en Rigores em 24 de junho de 2011; e em La Aurora em 11 de outubro, onde as mulheres se esconderam entre as árvores, assim como no sequestro de Chinchilla. Em 15 de agosto último, informa o Cofadeh, os guardas de Facussé, junto com policiais e membros das forças armadas, atacaram brutalmente os camponeses na plantação de palmas africanas conhecida como Finca Panamá.
Segundo o Rights Action, um grupo de defesa dos direitos humanos baseado em Washington e Toronto, “militares, policiais e forças de segurança privadas intercambiaram uniformes segundo o contexto, para mobilizar-se em conjunto em patrulhas policiais e carros que pertencem a companhias privadas de segurança empregadas pelos donos de plantações de palma africana”. O Cofadeh conclui afirmando: “A relação entre os militares e os guardas de segurança privados demonstra claramente que os guardas de segurança atuam como forças paramilitares.”
Nos últimos dois anos desde o golpe, o financiamento pelos EUA dos militares e policiais hondurenhos aumentou drasticamente. Os EUA destinaram 45 milhões de dólares a novos fundos para a construção militar, incluindo a expansão da Base Soto da Força Aérea em Palmerola, operada em conjunto (com o fornecimento, agora, de aviões não-tripulados norte-americanos), e abriram três novas bases militares. O financiamento da polícia e dos militares, de quase 10 milhões de dólares em 2011, aumentou drasticamente em junho com mais 40 milhões, segundo a nova Iniciativa Regional Centro-americana de 200 milhões de dólares, supostamente para combater o narcotráfico na América Central, que, certamente, é flagrante, perigoso e crescente em Honduras sob governo pós-golpe de Lobos, especialmente no Aguán.
As operações militares hondurenhas no vale do baixo Aguán, incluindo operações conjuntas com guardas de Facussé, se beneficiam destes fundos, assim como de um treinamento especial. No verão deste ano, 70 membros do Batalhão 15 de Honduras receberam um treinamento especial de 33 dias dos rangers norte-americanos. Segundo a Rede de Solidariedade com Honduras, membros do grupo Xatruch de Forças Especiais no vale do Aguán confirmaram em uma reunião em setembro que “haviam recebido treinamento em operações especiais de militares dos EUA, que incluiu treinamento de franco-atiradores e antiterrorismo”. Testemunhas presenciais informaram ao Rights Action que também viram rangers norte-americanos treinando guardas de segurança de Facussé.
Em 6 de outubro, membros da Operação Xatruch II capturaram, detiveram sem acusações e torturaram Walter Nelin Sabillón Yanos, membro do Muca, segundo informes da Fian. Sabillón contou que, enquanto estava detido na delegacia de Tocoa, as autoridades o espancaram, lhe colocaram repetidamente um capuz na cabeça e lhe aplicaram três vezes choques elétricos nas mãos, no abdômen e na boca enquanto o interrogavam sobre o movimento camponês.
Em 17 de setembro, liguei para a delegacia de Tocoa para perguntar sobre a situação de mais de 30 camponeses que haviam sido reunidos e detidos. “Digam-lhe que matamos todos os camponeses”, disse o oficial, rindo, e desligou. A uma colega que telefonou pouco depois, disseram que tratavam os detidos “como cães”. “Estão sendo torturados?”, perguntou ela. “Espero que sim”, respondeu o oficial.
Telegramas publicados em 30 de setembro pelo Wikileaks esclareceram mais ainda o papel dos militares dos EUA e do Departamento de Estado no conflito do vale do Aguán. Um telegrama de 19 de março de 2004 da embaixada dos EUA em Tegucigalpa, intitulado “Avião com drogas queimado em destacada propriedade hondurenha”, informa que “um conhecido voo de tráfico de drogas com uma carga de uma tonelada de cocaína da Colômbia (…) aterrissou com sucesso em 14 de março na propriedade privada de Miguel Facussé”. Segundo o autor do telegrama, o embaixador Larry Palmer, as fontes informaram a polícia que “o contrabando foi descarregado em um comboio de veículos protegido por quase 30 homens armados”. As fontes viram como o avião foi incendiado e seus restos, enterrados posteriormente por uma “escavadeira”.
Palmer escreve que “a propriedade de Facussé está fortemente protegida e a possibilidade de que os indivíduos tenham conseguido acesso à propriedade, sem autorização, e utilizado a pista de pouso é questionável”. Uma fonte “afirmou que Facussé estava na propriedade quando ocorreu o incidente”.
O embaixador Palmer também informou que “este incidente marca a terceira vez nos últimos quinze meses na qual se vincularam narcotraficantes com a propriedade do senhor Facussé”. Em um telegrama posterior, de 31 de março de 2004, Palmer informou sobre a apreensão de “aproximadamente 700 quilos de cocaína” pelas autoridades hondurenhas e manifestou sua opinião de que a droga podia ter vindo do avião incendiado na propriedade de Facussé.
Em 22 de fevereiro de 2009 – quatro meses antes do golpe – El Heraldo, um periódico direitista de Tegucigalpa, informou que, segundo um funcionário do escritório antinarcóticos do governo hondurenho, um avião Cessna com 1.400 quilos de cocaína havia sido encontrado em Farallones, a leste do vale do Aguán, no departamento de Colón, “em uma pista de aterrissagem que, segundo nossa informação, pertence a Miguel Facussé”. Parece seguro supor que a embaixada dos EUA lê El Heraldo diária e cuidadosamente.
Outros telegramas publicados pelo Wikileaks dizem que funcionários da embaixada se reuniram com Miguel Facussé em junho de 2006 e 7 de setembro de 2009, dez semanas depois do golpe, e que a embaixada almoçou com Facussé e Rafael Callejas, outro dos poderosos apoiadores do governo golpista.
Uma nova embaixadora norte-americana, Lisa Kubiske, chegou a Honduras em agosto deste ano. É especialista em biocombustíveis, o centro do império de palmas africanas de Miguel Facussé.
O que isso tudo quer dizer, então? Primeiro, a embaixada dos EUA se reuniu pelo menos duas vezes com um conhecido e destacado narcotraficante. Em segundo lugar, sabia que ele respaldou o golpe enquanto se desenrolava, como se fosse apenas um “destacado empresário”.
Em terceiro lugar, e mais importante, os EUA financiam e treinam militares e policiais hondurenhos que realizam operações conjuntas com os guardas de segurança de um conhecido narcotraficante, para reprimir violentamente um movimento camponês por conta das duvidosas reivindicações de Facussé de vastas áreas do vale do Aguán, a fim de fortalecer seu império de palmas africanas.
O atual presidente hondurenho, Porfirio Lobo, esteve em Washington durante a primeira semana de outubro. Proclamou seu compromisso com a defesa dos direitos humanos e a luta contra as drogas, com plena aprovação do presidente Obama. Na verdade, ambos asseguram a cobertura e o apoio a uma guerra contra camponeses empobrecidos, para promover os interesses econômicos do homem mais rico e poderoso de Honduras.
*Dana Frank é professora de história na Universidade da Califórnia, Santa Cruz, e autora de Bananeras: Women Transforming the Banana Unions of Latin America, que se concentra em Honduras, e de Buy American: The Untold Story of Economic Nationalism. Atualmente escreve um livro sobre a intervenção do AFL-CIO durante a guerra fria no movimento sindical hondurenho.

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