Pepe Escobar: "Medo e delírio no festival de Cannes da dívida"

Posted on 05/11/2011

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5/11/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/Global_Economy/MK05Dj02.html 

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

A morte é destino melhor, mais leve, que a tirania. (Ésquilo, Agamêmnon) [2]Palavras que saem pela boca são como montanhas. (Provérbio mandchu)

Cannes é mundialmente famosa pelo festival anual de cinema que acontece na cidade e percorre todos os itens que vão do glamour ao lixo mais trash. É cenário ideal, esse resort de Club Med, para um filme de horror financeiro monstro – espécie de versão com afogamento em série de uma Odisséia da quebradeira universal.[3] Uns deram ao filme o título de “Reunião do G-20”. Para outros, melhor “Lerdos e Furiosos”.

O par protagonista (feios, os dois) desse filme pornô atende por “Merkozy”, como disseram alguns parisienses[4] – resultado de polinização cruzada entre a primeira-ministra alemã Angela “Dear Prudence[5]” Merkel e o neonapoleônico presidente francês Nicolas Sarkozy.
Nas cenas iniciais, saídas diretamente de um daqueles ridículos episódios de Friends, os Merkozy estão em total pânico: o Deus (invisível) do Mercado, mais furioso que Zeus, ameaça, com uma fuzilaria de raios, reduzir a Fortaleza Europa a miséria maior que a miséria subsaariana – e sem os luxos de zona aérea de exclusão implantada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN.

O muito fotogênico Barack Obama, o Grande – líder do mundo livre – está prestes a baixar em Cannes, e Merkozy têm de correr, para mostrarem a ele que a humilde choupana da dupla – a Europa – está em ordem, com todo o lixo (a dívida) já varrido, pelo menos, para baixo do tapete (made in China).

Pior ainda, Sua Alteza o Presidente Hu (Jintao) da China – líder de todo o universo – também está para chegar, e a dupla Merkozy terá de fazer-se de dupla Brangelina (Brad Pitt & Angelina Jolie), na tentativa de seduzir a Alteza chinesa e levá-lo a desembolsar para fins caritativos umas moedinhas, dos 3,2 trilhões de dólares das reservas da China.

É quanto aparecem as Erínias (Fúrias, para os romanos, personificações da vingança) – sob a improvável forma de primeiro-ministro George Papandreou da Grécia, mais sitiado que Leônidas nas Termópilas. O grego decide invocar ritualmente a democracia. E inventa um referendo popular – para que o populacho grego decida sobre o próprio futuro já soterrado sob dívidas. E toda a eurozona, feito coro de Harpias, põe-se a uivar de horror.

A dupla Merkozy então prepara um golpe de roteiro, que destronaria o próprio Ésquilo. A dupla proíbe os gregos de votar sobre a operação de resgate que a dupla – ou os bancos franco-alemães – decidiu impor. Os pobres gregos só são autorizados a dar pitaco sobre se a Grécia permanece na eurozona, ou cai fora. Para somar insulto à ofensa, as gralhas-abutres burocráticas na Comissão Europeia gritam que a Grécia seja expulsa da União Europeia, se abandonar o euro.

Até que o neonapoleônico Sarkozy finalmente consegue entrar em cena, e pronuncia as palavras fatais: “Não podemos aceitar a divisão do euro. Significaria a divisão da Europa”.

Quer dizer que, pelo menos nessa parte do roteiro, Merkozy e as Harpias Europeias parecem ter chantageado o povo grego; obrigaram os gregos a submeter-se. Quem, dentre os mestres do universo, preocupa-se com terem reduzido a Grécia ao status de protetorado, depois de terem surrupiado mais de 50% dos meios com que os gregos contavam para arrancar-se da miséria, para que os bancos nada sofressem? Quem se preocupa com a Grécia e com os gregos, enterrados até 2021 numa dívida – insustentável – que equivale a 120% de tudo que o país produzir?

Mario Draghi, o novo presidente do Banco Central Europeu [European Central Bank (ECB)], sucessor de Jean-Claude Trichet, certamente não está preocupado com coisa alguma. Draghi, o Dragão, era sócio do banco Goldman Sachs, quando os gigantes norte-americanos “ajudaram” o governo grego – então, governo de direita – a maquiar suas dívidas. Continua tudo em família (grande demais para quebrar).

A dupla Merkozy pois derrotam a democracia – e a “Europa” como a conhecemos já não existe. O que sobra é um filme de penitenciária, filme B, no qual os donos da penitenciária são a dupla Merkozy, com vários zumbis assessores: Draghi; João Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia; Herman van Rompuy, presidente do Conselho Europeu; e bancos franco-alemães. E os zumbis escravos são, virtualmente, todos os povos de todos os países da Europa-Club Med.

A tal ‘coisa’, o Fundo Europeu para a Estabilidade Financeira [European Financial Stability Facility, EFSF]

O enredo engrossa. À moda dos filmes-catástrofe, o vingativo Deus (invisível) do Mercado já tem de ser aplacado, mesmo que algum país apenas comece a flertar, de longe, com a ideia do calote. O Salve-Rainha – a última instância, a solução que só aparece no último segundo – seria, em teoria, o poder de fogo do Fundo Monetário Internacional que, hoje, não passa de reles $380 bilhões de dólares.

Quer dizer: o filme pode ter começado como reunião de uma eurozona em cacos, partida. Mas, de repente, transformou-se em reunião de acionistas do Fundo Monetário Internacional, muito mais partidos, muito mais em cacos, e filmada à moda Oliver Stone.

Spots de propaganda do Fundo Monetário Internacional podem ser vistos em nada menos que 53 países – inclusive em três dos países PIGS: Portugal, Irlanda e Grécia. Evidentemente, o FMI não pode pôr-se a gritar ao mundo “Precisamos de dinheiro!” Por isso, só lhes restou resmungar baixinho, lá entre eles, o quanto precisam de uma porta corta-fogo monstro em Washington, para o caso de o ‘resgate’ da eurozona dar com os burros n’água (e dará).

Daqui em diante, só Alfred Hitchcock explica. O McGuffin [6] nesse caso, ali, bem à mão, atende pelo orwelliano nome de Fundo Europeu para a Estabilidade Financeira [ing. European Financial Stability Facility (EFSF)]. É uma ‘coisa’ que se espera que funcione como porta corta-fogo – colete salva-vidas, no caso de a Itália, por exemplo, seguir rápida para o fundo, feito o Titanic. Dizem que a tal ‘coisa’, esse EFSF, valeria a aterradora quantia de 1,4 trilhões de dólares. Sim, mas, mas… Onde, diabos, está esse dinheiro?!

O leitor tem todo o direito de não entender coisa alguma. Nenhum euro-roteirista jamais conseguirá explicar o tal de EFSF, sem, simultaneamente, contar o fim e enterrar o filme. Temos de partir para um flashback nada cinemático. Pausa para um refrigerante.

A Alemanha recusa-se terminantemente a usar o Banco Central Europeu para salvar países que se afogam. Então, a “Europa” (a dupla Merkozy e sortimento variado de fantoches) inventou o EFSF. Como se pode gerir um fundo sem tostão? Simples! Faça o que o Goldman Sachs (errado) fez.

O tal Fundo Europeu para a Estabilidade Financeira é uma empresa de fachada, com sede num paraíso fiscal discreto: Luxemburgo. Ninguém precisa de dinheiro, porque essa empresa só negocia “garantias”, “seguros”, “avais”. Primeiro, foi uma garantia de 440 bilhões de euros (US$607,9 bilhões) quase todos franco-alemães. Pode ser estendida: a Alemanha, pode ir até 211 bilhões e a França até 158 bilhões, de euros garantidos. São muitos euros (inexistentes), mas não é quantidade que ameace o padrão AAA da dívida da França. Lembrem: aí não se negocia com dinheiro. A coisa toda é só blá-blá-blá-blá.

Assim, com todo esse blá-blá-blá-blá garantido e segurado, os europeus pediram que as agências de risco lhes atribuíssem uma nota. O tal EFSF ganhou imediatamente nota AAA. Em seguida, os europeus foram aos mercados, e tomaram sacos e sacos de dinheiro emprestado. Claro: a dívida aumenta. A nova dívida é então usada como ajuda aos países superendividados – como Grécia ou Irlanda.

Vai funcionar por algum tempo. Em seguida virá o verdadeiro problema, quando não houver fundos suficientes para salvar a Itália (1,8 trilhão de euros) se a Itália falir (o rendimento dos bônus da dívida da Itália está na estratosfera). Nessa situação, a Itália precisará de uma porta corta-fogo de, no mínimo, 1 trilhão de euros. Não é fácil arrancar mais dinheiro, usando sempre as mesmas garantias. O dinheiro vai custar mais caro. E quando as coisas ficam realmente difíceis, a quem se pede socorro?

A Sua Alteza Hu, é claro. Ou, como tantas vezes, àquelas democracias modelares – às monarquias do Golfo Persa.

Não se trata de dinheiro de verdade: tudo é dívida. E tudo depende de a China – e, no pior cenário, as petromonarquias – acreditarem que, se entrarem com o dinheiro deles para ajudar a Europa, que, afinal, não é dinheiro tão virtual, China e petromonarquias conseguirão arrancar alguma espécie de lucro. Sua Alteza Hu – e a China – acreditaram? Não. De modo algum.

O fim do perigo amarelo

Quando se chega à hora de a onça beber água, trata-se sempre e só de protecionismo nacional, na economia “global”. Um Plano B viável para encarar qualquer tipo de crise seria a Taxa Tobin, também conhecida como imposto sobre transações financeiras [ing. financial transactions tax, FTT], imposto Robin Hood e, também, imposto Wall Street –, essencialmente um imposto sobre negócios com ações, papéis, derivativos e outros “produtos”. O alvo preferencial são os megabancos que provocaram a infindável crise econômica atual.

É altamente explicativo ver quem se opõe à Taxa Tobin: todo o governo Obama; o secretário do Tesouro dos EUA Tim Geithner – a mais perfeita tradução que jamais houve do “1% de Wall Street” – que mobilizou um lobby para que os europeus derrubassem a Taxa Tobin; os britânicos (porque pagariam muito mais que os demais, dado o movimento gigante de negócios na City de Londres).

Também é iluminador ver quem defende a Taxa Tobin: Bill Gates, que, em documento apresentado ao G-20, disse que a Taxa Tobin é “evidentemente possível, do ponto de vista técnico”; Sarkozy, diga-se a favor dele, concordou (“é tecnicamente possível”); os governos de Alemanha, Brasil e Argentina.

Quanto à Sua Alteza Hu, mantém-se imperscrutável, sobre o assunto. Verdade é que “imperscrutável” é praticamente parte de sua assinatura. Ao chegar a Cannes, sua Alteza Hu declarou que encorajava “a estabilidade da eurozona e do euro”. E nada mais.

Todos lembram aquele filme anterior, em que os países BRICS emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) andaram considerando a possibilidade de comprar papéis da eurozona, para ajudar. Em seguida, não se falou mais disso. Agora, a onda é a China entrar para aquela ‘coisa’, o EFSF.

Os chineses sabem, de sobra, que dois governos europeus que não valem um réis de mel coado não podem, absolutamente, aplacar a fúria do Deus do Mercado. O premiê chinês Wen Jiabao até já disse a Van Rompuy que a Europa precisa de reforma estrutural. Há duas semanas, o vice-ministro das Finanças chinês Zhu Guangyao havia sido mais cauteloso, dizendo que a possibilidade de a China soltar o dinheiro estava “em discussão”, mas Pequim queria saber o que a União Europeia realmente estava fazendo.

Até que, essa semana, na 5ª-feira, anteontem, Guangyao disse que é “muito prematuro” a China discutir o EFSF. E Zhang Tao, diretor-geral do Banco da China, disse, em resumo, que, até agora, ninguém tem nem ideia do que está acontecendo.

Assim se chega ao final do filme, sem qualquer pista para o desfecho de todos esses sub-enredos do roteiro. É quando o público afinal dá-se conta da esquizofrenia monstro que acomete a dupla Merkozy. Merkel – que não pode ser acusada de ser uma Cameron Diaz – tem mentalidade reles de “dinheiro no colchão”; por isso está abrindo a porta para que os chineses entrem na Europa pelo EFSF.

Quanto a Sarkozy – que se acha um Alain Delon –, é mais megalômano que Napoleão. Há mais de dois anos, promete, todos os dias “redescobrir o capitalismo”. Depois de posar como Grande Libertador da Líbia, imaginou que, em Cannes, seria coroado presidente vitalício – o Relações Públicas ideal para as eleições do próximo ano. Mas a húbris – e logo contra a Grécia, quem diria?! – intrometeu-se.

Assim, só restam, afinal, as verdadeiras estrelas da história – Sua Alteza Hu e o premiê Wen. O que realmente buscam permanece oculto em palavras que não parecem montanhas: “vantagens mútuas”. Situação de “ganha-ganha”. Tradução: a China aceitará participar daquela ‘coisa’, o EFSF, se, em troca, o país for reconhecido como “economia de mercado” – status que libertará a China dos controles estritos da legislação anti-dumping da União Europeia. Os abutres burocráticos da Comissão Europeia recusaram – porque, argumentaram, a União Europeia já está inundada de produtos made-in-China. Segundo a Organização Mundial do Comércio, só em 2016 a China será reconhecida como economia de mercado.

A China também quer o fim do embargo, pela União Europeia, de vendas de armas. E, sobretudo, a China quer ter maior poder de decisão no IMF e no Banco Mundial – desejo partilhado por dois outros países BRICS, o Brasil e a Índia.

Quer dizer: a bola está no campo europeu. Se Pequim decidir ajudar a União Europeia – que virada histórica de dimensões tectônicas! – a coisa pode ser só mais simbólica que substancial. Ninguém teria acumulado $3,2 trilhões em moedas estrangeiras, se gastasse como mulher de emir nas lojas Harrods.

Ao mesmo tempo, assim como Pequim, de fato, já patrocina o consumo nos EUA, os chineses sabem que não perdem pedaços se apoiarem a Fortaleza Europa, para que os europeus também continuem a consumir. É bom negócio, também, pôr algumas reservas em euros: geoestrategicamente, é investimento de altíssimo rendimento, em Relações Públicas.

Portanto, o nó górdio de todo o enredo do filme Lerdos e Furiosos permanece atado, sem solução à vista: como convencer Sua Alteza Hu a soltar alguma grana? Ótimo momento para filmar um filme-sequência. Mas, ah! Que saia de lá aquela dupla Merkozy! Queremos Brad Pitt & Angelina Jolie, os Brangelina.

NOTAS

[1] Fear and Loathing in Las Vegas: A Savage Journey to the Heart of the American Dream [Medo e delírio em Las Vegas: viagem selvagem ao coração do sonho americano] é romance escrito por Hunter S. Thompson e ilustrado por Ralph Steadman. Foi publicado originalmente em duas partes, na revista Rolling Stone em 1971. Em 1998, foi adaptado para o cinema (Fear and Loathing in Las Vegas, dir. Terry Gilliam, com Johnny Depp e Benicio del Toro) [NTs].

[2] ÉSQUILO. Agamêmnon. São Paulo: Perspectiva, 2007. Trad. Trajano Vieira. A peça pode ser lida em português, em http://pt.scribd.com/doc/6569355/ESQUILO-Agamenon [NTs].

[3] Orig. a monster financial horror movie – a sort of drowning-by-numbers version of the Odyssey on crack. “Drowning-by-numbers” é título de uma comédia macabra, de 1998, dirigida por Peter Greenaway, em que três mulheres de três gerações sucessivas (a avó, sua filha e uma neta) afogam os respectivos maridos. O filme pode ser visto em http://stagevu.com/video/irjsywpzjxin [NTs].

[4] “A expressão ‘Merkozy’ nasceu há dez dias no Twitter” (“Merkozy – ou o governo europeu de emergência”, 4/11/2011, Paulo Querido, Jornal de Negócios, Lisboa, em http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=517075) [NTs].

[5] Lennon/McCartney, dos Beatles. Tradução da letra, em http://tocaletra.uol.com.br/musica/the-beatles/dear-prudence-traducao.html [NTs].

[6] “McGuffin” é ideia de Alfred Hitchcock, consagrada como conceito da teoria do cinema. Não é uma pessoa; é um elemento qualquer introduzido no roteiro para concentrar a atenção ou para conduzir a ação. Num filme, o McGuffin é um segredo que uns tentam descobrir e outros querem esconder; noutro filme, é o urânio, que uns querem roubar e outros querem impedir que seja roubado; noutro, é uma jóia perdida, que uns querem encontrar e outros querem impedir que seja encontrada, etc. Sempre é algo com o que todos os personagens preocupam-se, de diferentes modos. O McGuffin é qualquer coisa em torno da qual toda a história é construída, mas que, de fato, não é essencialmente importante para nenhuma narrativa, nem precisa ter importância em si. O que importa é que o McGuffin seja ou pareça ser importante para os personagens.

Sobre “McGuffin”, diz o próprio Hitchcock: “ ‘McGuffin’ evoca um nome escocês. Pode-se então imaginar uma conversa entre dois homens que viajam num vagão de trem. Um pergunta: ‘O que é esse pacote que você pôs no maleiro?’ O outro responde: ‘Ora! É um McGuffin’. O primeiro volta a perguntar: ‘E o que é um McGuffin?’ O outro responde: ‘É um aparelho para apanhar leões nas montanhas Aridondaks.’ O primeiro diz: ‘Mas não há leões nas Aridondaks!’ Diz o segundo: ‘Então, o pacote não é um McGuffin’. Essa historieta mostra o vazio do ‘McGuffin’… o nada do ‘McGuffin’” (Hitchcock, em Truffaut e Hitchcock, Entrevistas, em espanhol, em http://www.truffaut.eternius.com/Hitchcock_Truffaut_2.htm [NTs].

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