Aliança entre Governo estadual e empresários da construção civil ameaça preservação do estádio Juvenal Lamartine e põe em risco o meio ambiente da cidade do Natal

Posted on 07/11/2011

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Por Carlos Alberto Nascimento de Andrade
Professor do Departamento de Educação da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN

Inaugurado em 1928, o Estádio Juvenal Lamartine (JL), localizado em Natal-RN, palco de grandes eventos relacionados ao esporte bretão está ameaçado de desaparecer. Submetido a um intenso fogo cruzado por parte de redes organizadas, nos últimos meses o vetusto estádio encravado no Bairro do Tirol tem pautado as matérias futebolísticas veiculadas pela imprensa potiguar, todavia tais matérias carecem de um viés crítico e distanciado das reais motivações dos argumentos que reivindicam sobre a necessidade de se permutar este logradouro público por uma área distante de sua atual localização. Mesmo de forma solitária e mesmo sendo uma tarefa inglória, pois estamos mexendo num vespeiro de interesses escusos, este é o objetivo central deste texto: argüir de forma ilibada sobre a necessidade histórica, ambiental e identitária para a preservação do JL. Dossiê das acusações contra o Estádio Juvenal Lamartine e as razões para sua preservação

Os argumentos mobilizados pelos que defendem sobre a necessidade de se permutar a atual área do JL por outra em local longínquo (na Zona Norte) são indefensáveis e insustentáveis. Vejamos alguns deles: argumentam que o JL não possui estacionamento. É preciso lembrar que temos dois grandes estádios em Natal, o Frasqueirão e o atual Machadão (futuro Arena das Dunas), e provavelmente vamos ter um terceiro que será o Estádio do América (Arena do Dragão). Neste sentido, o JL será uma praça de esportes voltada fundamentalmente para o esporte amador, onde ABC, América e Alecrim mandarão seus jogos pelas categorias amadoras. Apenas pequenos jogos de profissionais serão realizado neste local, como por exemplo: Alecrim X Potiguar, América X Baraúnas etc. Com efeito, não vamos ter grandes contingentes de torcedores com automóveis estacionados naquelas imediações. Contudo, para os afeitos ao argumento que o JL não tem condições de possuir um estacionamento próprio, informo que o Estádio Presidente Vargas em Fortaleza, reformado recentemente, não possui estacionamento, e as ruas que o circundam têm dimensões bem menores do que áquelas adjacentes ao JL. Idem para o Estádio da Graça em João Pessoa, reformado também recentemente. E o que dizer do Frasqueirão, como fica o estacionamento em dias de grandes jogos? E os Aflitos? E o Pacaembu?…

Argumentam que o campo de jogo não atende as determinações e exigências da FIFA. Realmente, se considerado o que existe no momento não atende, todavia sua reforma deve contemplar tais exigências, esta é uma das atribuições das técnicas de engenharia, foi isto que fizeram com o Estádio Leonardo Vinagre da Silveira, conhecido como Estádio da Graça, localizado em João Pessoa-PB, que atualmente sedia jogos do campeonato paraibano.

Argumentam que o JL não tem utilidade. Este conceito de utilidade é reducionista, pois está restrito única e exclusivamente ao futebol profissional. O que seria do futebol profissional se não fosse o futebol amador? Simplesmente não existiria. 100% do jogador profissional tem sua origem no futebol amador, seja nas categorias de base dos clubes ou nos “times de várzea”. Além de pequenos jogos do futebol profissional o JL estará apto para sediar os seguintes campeonatos: infantil, juniores, sub-15, sub-17, sub-20, 2ª divisão, campeonato de futebol feminino. Para além dessas modalidades, também poderá servir aos alunos das escolas estaduais, como palco para treinamento e como espaço para a realização dos Jogos Escolares do Rio Grande do Norte – JERNS, patrocinado pela Secretaria de Estado da Educação e da Cultura. É preciso reter, que em função da especulação imobiliária os “campinhos de Várzeas” estão praticamente em extinção.

Como conseqüência do anterior, argumentam que a prioridade para o Governo do Estado é a construção de um Hospital na Zona Oeste de Natal, por isso defendem a permuta do JL pela construção deste hospital. Uma coisa não elimina a outra. Estamos todos de acordo que Natal carece de mais um hospital público, entretanto se realmente esta é uma prioridade da atual gestão do Executivo Estadual, e o governo alega não ter recursos para tal investimento, isto não poderá ser à custa de uma permuta com o JL. O Governo do Estado possui vários imóveis que não se encontram com uso público adequado e que podem perfeitamente servir de “moeda de troca” para a referida construção, com por exemplo, o terreno onde se encontra o Aeroclube de Natal encravado numa das áreas mais nobres da cidade, o bairro do Tirol. Esclareço que não estamos sugerindo esta permuta, apenas estamos apresentando um exemplo. Com certeza o governo possui outros imóveis que estão ociosos e que poderão perfeitamente servir para esta finalidade.

Para além das razões esportivas, podemos dissertar sobre a necessidade da preservação do Estádio Juvenal Lamartine pela perspectiva ambiental e climática. Na verdade, os pseudos argumentos mobilizados para desqualificar o JL escondem seu real sentido: negociar, ou entregar aquela praça de esportes aos grupos empresariais ligados a construção civil, eis o “pano de fundo”. Com um terreno super valorizado, se a negociata for viabilizada, naquela área deverão ser construídas várias torres de edifícios com aproximadamente 20 andares cada. Como conseqüência, nós vamos ter um aprofundamento ainda maior das ilhas de calor na região metropolitana de Natal, tendo em vista que edificações aumentam significativamente a irradiação de calor para a atmosfera, que em decorrência da especulação imobiliária têm afetado as áreas urbanas das grandes cidades brasileiras elevando ainda mais as temperaturas das cidades. Faz-se necessário lembrar que o JL fica no sopé do Parque Estadual das Dunas, área de mata nativa integrante da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica e que exerce importância fundamental para a qualidade de vida da população da cidade, uma vez que esta formação constituída de vegetação natural serve de atração para as brisas marinhas que sopram do Oceano Atlântico, suavizando o calor e estabilizando a temperatura média da região metropolitana, contribuindo decisivamente para o equilíbrio do meio ambiente urbano. Além disso, as águas das chuvas quando infiltradas naquela área ajudam a alimentar o aqüífero subterrâneo ali existente. A construção de espigões naquele terreno vai impermeabilizar a área, fazendo com que em períodos de chuvas as ruas do Tirol fiquem alagadas, como já ocorre na Zona Sul, com é o caso de toda extensão da Av. Airton Sena, além da Abel Cabral em Parnamirim, onde as lagoas de capitação de águas fluviais estão ficando cada vez mais saturadas em virtude da construção sem limites e sem planejamento de edifícios naquela área.

Em outra perspectiva, a preservação do JL contribui para a afirmação de valores locais como meio de resistência a valores globais alienígenos, como a cultura “neocolonizadora” da identificação do torcedor local com clubes, principalmente, de São Paulo e Rio de Janeiro. Pesquisa recente, publicada pela imprensa escrita local, mostrou que apenas 11% do torcedor potiguar freqüenta nossos estádios de futebol. O motivo é a falta de identidade com nossos clubes. Vários fatores contribuem para que isso ocorra: transmissão abusiva pela televisão de jogos de futebol, sobretudo do eixo Rio de Janeiro e São Paulo nos mesmos horários dos jogos de nosso Campeonato Estadual; imprensa falada, escrita e televisada que dedica maior parte de seu noticiário para fatos esportivos relacionados com estes dois estados da federação. A propósito, citamos um caso emblemático e absurdo: recentemente o Alecrim foi jogar em Recife contra o Santa Cruz pernambucano, numa partida que era de “vida ou morte” para as pretensões esmeraldina, pois caso o Alecrim vencesse a partida prosseguiria na Série D rumo a C. Pois que, a Rádio Globo de Natal, ex-Rádio Cabugi (parece sintomática a mudança de nome), ignorou este jogo e simplesmente retransmitiu pelo seu prefixo a partida entre Botafogo X Flamengo.

Diante deste quadro, a luta pela reconstrução da identidade cultural local contribui decisivamente para a elevação da auto-estima, consequentemente ao agir de forma independente e com autonomia o indivíduo poderá operar maiores resistências à valores que não estão relacionados com seu cotidiano. Neste sentido, a preservação do JL contribui com a identidade do torcedor com os clubes potiguares e com a história de sua cidade.

A luta pela preservação do Estádio Juvenal Lamartine não interessa apenas ao setor esportivo, mas a toda comunidade norteriograndense. Por isso, conclamamos todos os cidadãos e cidadãs de todos os segmentos sociais que se preocupam com o futuro de nossa cidade, principalmente os relacionados com o meio ambiente, como a Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente e do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do RN – IDEMA, para formarmos uma Frente Ampla contra redes organizadas e poderosas que têm como única preocupação a busca pelo dinheiro fácil, em detrimento do bem-estar da população.

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