Professor vítima de violência policial: “É difícil acreditar que estou sendo estrangulado diante de um público cativo”

Posted on 15/07/2015

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Julio Vitorino Figueroa
Professor do curso de Comunicação da FANOR
Mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal da Bahia.

Sábado agora, 11 de julho.
Ato minha bicicleta dentro do Estoril (rua dos Tabajaras, 359, Praia de Iracema, Fortaleza) e espero dois amigos que estão por chegar, como tínhamos combinado. Sentado na calçada, ainda nenhum sinal deles. Cruzo a rua e vou até o estacionamento ao lado. Percebo um colega de trabalho na calçada, conversando com uma garota. Entro e me escoro na parede frontal do estacionamento, do lado de dentro e bem rente à entrada, de costas para a rua.
De dentro do estacionamento, três caras se aproximam numa postura que a minha reação primeira entende como suspeita: “mas que coisa estranha… esses caras tão procurando alguém pra brigar ou tão a fim de roubar alguma coisa”.
Camisa regata preta com estampas, bermuda e boné encaixado de lado na cabeça. Este rapaz é o que vem na frente e me afronta, num tom de enfrentamento mesmo: “Ei! Ei! O que é que tu tava bilando a gente ali, hein?”. “Como é? Bilando o quê!!? Num tava bilando nada não!”, eu respondo no mesmo tom, sem entender nada. “Poxa, o que é que esse cara tá falando, o que tá acontecendo?” é o que penso. “Bilaaaando!! tu tava bilaaando!”, insiste e ameaça. “Eu não tava bilando nada nao, mermão”, mantenho o tom. Vejo que ele empunha uma arma de fogo.
O cara enche a mão com a minha camisa e me puxa pelo peito com violência, tentando me arrastar para dentro do estabelecimento, intensificando o tom da ameaça: “Vamo logo pra lá, seu ………”. “Meu irmããão, peraííí! Me solte!”… tento tirar a mão dele da blusa que eu visto. Uma porrada vindo de algum lugar entra na lateral da minha cabeça, com gosto e muito peso.
Fico atordoado. Mas é só a primeira. Outros golpes pesados entram na cabeça. “SEU MERDA!!!! SEU DROGADO!!!! TU TÁ PENSANDO O QUÊ????”. E eu ainda não acredito: “O que é isso?!!! Vocês tão ficando doido?” Na nuca, têmpora, maxilar e costas. E entra mais um, dois e três golpes em cheio de mão aberta enquanto eles rasgam minha camisa pela força do puxão. Peito e ombro à mostra. Escuto “polícia” em meio à tontura na eficiente chuva de tabefes. Fico indignado. Polícia? Como assim “polícia”?
Meu corpo é carregado para dentro do estacionamento, mais distante da rua, e derrubado no chão. Os chutes começam. Mais pessoas estão ali. São vários deles. Meu corpo bambo é colocado de pé, torto. Erguendo minha cabeça tonta com as duas mãos no meu rosto, uma pessoa inicia algo parecido com o que se conhece como conversa. Bastante jovem, ele me olha nos olhos e tem um distintivo, pendurado por um cordão no pescoço. Fala querendo me ouvir, querendo explicar, querendo alguma coisa, tentando
po-li-ci-ar.
Me livro do que sobrou da blusa e respondo verbalmente negando as acusações de tráfico, recuperando aos poucos a energia e o entendimento para uma postura altiva e digna. Mexem nos meus bolsos, retiram celular, carteira e meu cantil, enquanto distribuem insultos gritados de drogado e vagabundo. Eu digo que estão vacilando, tão fazendo a coisa errada, que podem revistar o que quiserem o quanto quiserem. Tapa.
Critico a abordagem e a ação, levo tapa. Contesto, tapa. Eu olho, é tapa. Não me comporto como se deveria esperar. Tapa.
Recuso a aceitação do afugentamento. Eu mereço mais. E logo vem… Meu pescoço é agarrado por um deles. É difícil acreditar que estou sendo estrangulado diante de um público cativo. O motivo é evidente e justíssimo: estar escorado numa parede da cidade onde moro, onde moram meus amigos e onde mora minha família. Todos assistem ao evento do meu corpo sendo arrastado via mata-leão para um espaço entre dois carros. A pressão do golpe no meu pescoço é veloz, faz pesar e incha de imediato a cabeça. A voz tenta dizer, sem canal, que se aquilo continua eu apago ou vou e não volto, mas o que sobra pra sair é um grunhido humilhante. “Tá bom, tá bom”: alguém, outra vez, lembra e exercita o policiamento.
É transmitida a informação de que vou ser autuado por desacato e blá-blá-blá. Já não lembro se agora é contestação, tapa ou “Drogado!” ou tudo junto. Sou ordenado a ficar sentado ao lado de quatro adolescentes, já enfileirados no chão.
“Dezessete. Eu sou usuário, mas me pegaram, porque tão dizendo que é pra vender”, foi o que o adolescente de blusa verde disse quando eu buscava entender. Chegam duas viaturas do ronda do quarteirão, que barram o estacionamento. Todos descem e conversam entre si. 30 minutos depois, dividem-nos nos carros. Eu e o adolescente vamos na caçamba aberta de um veículo Hilux prata particular.
Sou algemado junto ao jovem, e um policial sobe na caçamba com uma pistola preta em punho, mantendo-a abaixo do campo de visão de quem observa fora do carro. Na saída do estacionamento, procuro alguém conhecido e vejo novamente meu colega de trabalho. Ele me reconhece. Faço sinal para que ele telefone para alguém que possa ajudar. Eu pensava que minha vida não tinha nenhum significado e que o dono dela podia não ser mais eu.
Durante o caminho, tento manter as algemas à vista para condutores e pedestres. “Tamo indo pra delegacia de narcóticos”, diz o policial quando eu pergunto. Eu olho a arma, ele passa pra mão esquerda e a empunha de maneira menos ofensiva. “E onde que fica?”. “Fica perto da rodoviária”. E o carro segue esse destino.
Subo para preencher uma ficha de comparecimento a uma audiência e para falar com a delegada. O policial que me recebe na mesa mostra vários pertences… “O que é que é teu aqui?”. “Celular, carteira e cantil. Mas tem também minha camisa que eles rasgaram e ficou lá, junto com a minha dignidade” . Ele ri, segura o riso por mais tempo do que o riso quer e olha pra cima: “Olhaí, doutora. Ele disse que tem que devolver também a dignidade, oh”, voltando a abrir o sorriso. A delegada, de blusa gola polo preta com a marca da polícia bordada no peito, aparece e fica de pé apoiada na mesa, de frente pra mim. Ela age numa frequência semelhante à dos mais exaltados, só não me agride fisicamente.
De pé, um tanto furiosa, “Você não quer ser escutado?? Então pode começar a falar que eu to escutando!”. Relatei a irresponsabilidade da aproximação e de toda a condução das ações, da falsa suspeita até o uso da força bruta com naturalidade, os excessos e o amadorismo do início até o fim. “Eu quero saber o nome completo de todos os caras que me bateram pra denunciar aqui agora”. “Isso aí você vê na delegacia ‘tal’ segunda-feira, não é aqui não isso”. Mais um pouco e ela perde a paciência e desiste de me escutar. Abana a mão direita para o policial que preenche a ficha: “qualifica, qualifica”, desaparecendo pra não voltar mais.
Abre-se um momento de conversa entre alguns policiais ali presentes e eu. Minutos depois, por discordar, recebo insultos de “palhaço, cala boca (4x), burro (5x), vagabundo (?), vá com seus amigos baitolas, você é um ignorante, etc….”. O clima anterior volta, mas sem as agressões físicas. O dois donos dos gritos me insultam, incansáveis, sem baixar o volume, de dentro do elevador até a saída da Delegacia de Narcóticos. O terceiro policial no elevador é silêncio. Ele me acompanha até a saída: “Vai na paz”.
A polícia que eu vi continha uma porção legal (legal = que acredita ou busca o que é justo), uma galera que tá ali (tá ali = moçada que trabalha ali, seguindo a vida, o fluxo, sem drama) e tem a galera complexa (essa é a galera que tem que receber orientação ética, espiritual, sensível e, obviamente, buscar outro tipo de trabalho). Era contraditória.
Para muita gente, em especial os que infelizmente se acostumaram a receber as visitas constantes dos policiais complexos, isso não é nenhuma novidade. É natural. É de praxe. Estariam ou estão fazendo isso agora, em algum lugar. Contudo, pra muita gente, isso é sim uma grande surpresa. Mesmo aqueles que já sabem dos excessos por relatos ou vídeos, quando experimentam, também se surpreendem e se assustam.
O problema da violência é enfrentado por todos nós, cidadãos policiais, cidadãos engraxates, cidadãs donas de casa, cidadãos estudantes, cidadãos motoristas de ônibus, cidadãs professoras, cidadãos engenheiros, cidadãos desempregados, cidadãs dançarinas, cidadãos músicos, cidadãs surfistas… Violência do ciclista contra o pedestre, violência do homem contra a mulher, violência do ônibus contra o ciclista, violência da meta contra o empregado, violência do policial contra o professor, violência da acumulação contra o livre usufruto do tempo, violência das decisões políticas contra a polícia. A Praia de Iracema, a rua dos Tabajaras e o seu entorno é dos cidadãos, inclusive dos cidadãos que trabalham como policiais.
Prezados policiais, todo o meu apoio às insatisfações de vocês quanto à impossibilidade de exercer plenamente um trabalho em sintonia com a justiça, cada vez mais fora de moda, dentro e fora da polícia.

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Posted in: Direitos Humanos