15-M retoma Puerta del Sol com chegada da marcha a Madrid

Posted on 24/07/2011

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Do site da
Carta Maior:
Os participantes da Marcha Popular Indignada organizada pelo movimento 15-M chegaram sábado (23) a Madrid. Seguidores de seis diferentes rotas, vindas de diversas cidades espanholas com destino à capital do país, todos traziam nos pés o cansaço de 29 dias de caminhada e no rosto a emoção do encontro, ao fim da jornada, com tantas pessoas que tinham traçado seu trajeto em direções opostas, para alcançar um mesmo objetivo: manifestar sua oposição às atuais políticas socioeconômicas postas em práticas pelos líderes do continente europeu. “De norte a sul, de leste a oeste, la lucha sigue, cueste lo que cueste!” – gritavam os manifestantes. A reportagem é de Fabíola Munhoz, direto de Madri.

Fabíola Munoz – Direto de Madri, Especial para a Carta Maior

Os participantes da Marcha Popular Indignada organizada pelo movimento 15-M chegaram sábado (23) a Madrid. Seguidores de seis diferentes rotas, vindas de diversas cidades espanholas com destino à capital do governo do país, todos traziam nos pés o cansaço de 29 dias de caminhada e no rosto a emoção do encontro, ao fim da jornada, com tantas pessoas que tinham traçado seu trajeto em direções opostas, para alcançar um mesmo objetivo: manifestar sua oposição às atuais políticas socioeconômicas postas em práticas pelos líderes do continente europeu. “De norte a sul, de leste a oeste, la lucha sigue, cueste lo que cueste!”, a frase era gritada em coro por milhares de militantes reunidos às 21h00 na Puerta del Sol, confluência entre as rotas Norte, Sul, Leste, Oeste, Nordeste e Noroeste, que se estenderam como diferentes braços da Marcha, passando por povoados e pequenas cidades para coletar os problemas e reivindicações populares presentes em cada um desses locais.

Decidi me somar aos integrantes da Rota Nordeste, saída de Barcelona, quando os primeiros raios solares da manhã de sábado ainda faiscavam no ceu. Depois de cerca de oito horas viajando num ônibus fretado pela Comissão de Terceira Idade da Acampada Barcelona, desde a Praça Catalunha, ponto de partida da excursão, cheguei finalmente a Torrejon de Ardoz, povoado que se localiza a 23,6 km de Madrid. Aquela havia sido a última parada para essa rota da marcha, antes de sua tão esperada chegada à sede do governo espanhol. As duas lotações que vinham da capital catalã para percorrer o último trecho da caminhada, encontraram os ativistas andarilhos em um pavilhão de exposições, que lhes havia sido cedido pela população local como abrigo. Ali fomos recebidos com simpatia e um café-da-manhã farto, todo preparado com doações da comunidade. Depois de um tempo de espera até que os acampados desfizessem suas tendas e as Comissões de Cozinha e Infraestrutura preparassem suas furgonetas, a Marcha finalmente voltou à estrada.
Aqueles que haviam participado da aventura desde o início podiam ser identificados pelo tom moreno da pele, exposta tantos dias ao calor das atuais tarde de verão. Alguns, cujos rostos eu lembrava de Assembleias Gerais na Praça Catalunha, pareciam mais magros e desgastados fisicamente, ao mesmo tempo em que mostravam no brilho dos olhos alegria e ânsia por cumprir de vez a missão a que se haviam proposto. E, de fato, ao longo do caminho, esses militantes jamais deixaram de compartilhar seu ânimo com os carros que passavam, fazendo o convite para que apoiassem o protesto por meio de buzinas e acenos. A maioria trazia, além de mochilas e garrafas de água, cartazes com frases de indignação, e coletes de cor fosforescente que, além de sinalizar a presença de pedestres ao trânsito, simbolizava o espírito de luta do grupo, no conteúdo das mensagens escritas à canetinha em suas costas.
Foram cerca de seis horas de procissão, passando por uma cidadezinha chamada San Fernando de Henarez, em que a população parou para ver a movimentação nas ruas. Durante todo o percurso, os indignados itinerantes gritavam a acusação de “culpables” frente a agências bancárias, enquanto um rapaz posicionava uma placa com a palavra “não” frente ao logotipo dessas empresas financeiras. Também despertavam a revolta dos manifestantes, fazendo com que aumentassem o tom de voz dos protestos, cartazes divulgando a visita do Papa à Espanha que podiam ser vistos em algumas das paredes que circundavam o trajeto. O alto valor a ser desembolsado com a recepção dessa autoridade maior da Igreja Católica, já anunciado pelo governo espanhol, na visão dos “indignados”, representa um absurdo frente ao corte de gastos públicos em áreas prioritárias como saúde e educação. Pouco depois, foi feita uma parada para que os militantes comessem frutas, bebessem água, fossem ao banheiro e também tivessem a oportunidade de assinar um manifesto contrário à construção de um aterro sanitário em um terreno próximo dali.
O descanso foi curto: cerca de 40 minutos antes de regressar à estrada. E a caminhada seguinte rendeu, fazendo-se a passos largos e com a força da gente que havia se somado, até que nova parada para recuperação de energias sob a sombra aconteceu em um parque do município de Caslada. A cada pausa, o movimento recebia novas adesões, doações de comida ou simplesmente aplausos e sorrisos de incentivo. Toda essa vibração positiva se convertia em gritos de entusiasmo e hinos musicais, que eram produzidos pelos integrantes da marcha para extravasar a exaustão com alegria.
A jornada, então, seguiu até um de seus momentos mais emocionantes. Durante a passagem sob um túnel na entrada de Madrid, uma grande massa fez cartazes e faixas vibrarem enquanto entoava em eco “Si, si, estamos em Madrid!”. Nesse instante, muitos dos ativistas que já levavam quase um mês nessa vida de andarilho, puseram-se a chorar comovidos.
Pouco depois, os integrantes da Marcha chegavam ao Parque Paraíso, localizado já na capital espanhola, no cruzamento entre as Avenidas Arcentales e García Noblejas. Ali, as comissões de Infraestrutura e Cozinha do 15-M montaram uma acampada improvisada, onde todos tiveram acesso a alimentação e bebida gratuitas, tudo produto de doações. Relaxava as pernas e as costas, doloridas com o peso da mochila, deitada sob uma árvore frondosa, quando fui convidada a beber um copo de gazpacho. O cardápio ainda incluía macarrão, tortilla de batatas, frutas e saladas para os vegetarianos e veganos, e sanduíches de jamón e queijo, além de sucos e leite com chocolate. Despois de comer bem e descansar, os militantes utilizaram um palanque feito às pressas com a conexão de um microfone a duas caixas de som, para transmitir recados, fazer agradecimentos aos que se empenharam para o sucesso da marcha, e também avisar que a manifestação com o objetivo de encontrar as outras rotas da jornada, na Puerta del Sol, teria início às 18h00.
E assim foi. Na hora marcada, todos já estavam a postos, com novos cartazes, fantasias e bagagens de acampamento, na saída do parque, para dar início à mobilização. Foram mais duas horas de caminhada ao som de intrumentos de percussão levados po alguns dos manifestantes e gritos indignados que comunicavam, dentre outras mensagens: “No es crisis, es capitalismo”, e “Menos polícia, más educación”. A repressão policial se fez lembrar mais nas palavras dos ativistas do que em sua presença de fato. Algumas viaturas da Guarda Urbana podiam ser vistas durante todo o trajeto seguido pelos militantes, mas sua interferência apenas se fazia notar na tentativa de organizar o trânsito, pedindo em um momento ou outro, que os participantes dos protestos dessem espaço à passagem de carros. Confronto entre policiais e população não houve e tampouco esse tipo de ação se justificaria diante da pacifidade e do clima de festa observados durante toda a mobilização.
Ao longo do caminho, como sempre, os manifestantes chamavam os bancos de “culpáveis” e convidavam o restante da sociedade à participação. “No nos mires, une-te”, diziam os integrantes do 15-M, recebendo como resposta expressões receptivas ou simplesmente curiosas, de pessoas que passavam com pressa pelas ruas, ou assistiam ao barulho dos protestos de suas sacadas e janelas. Antes de alcançar o ponto de chegada, os “indignados” ainda pararam frente ao Corpo de Bombeiros, onde manifestaram sua solidariedade a essa classe de trabalhadores, que também tiveram seus salários cortados em consequencia das medidas de austeridade econômica do governo espanhol. Os bombeiros receberam a iniciativa sorrindo, acenando e fazendo fotografias dos manifestantes.
Quando, finalmente, a massa popular chegou à Puerta del Sol, um grande cartaz dava as boas vindas à marcha, enquanto outros posters coloridos decoravam a famosa estação de metrô da praça, e uma nova acampada começava a se formar com a montagem de uma tenda de comunicação, a partir de onde seriam instalados os equipamentos necessários para a realização de uma grande Assembleia Geral no local. Desse modo, uma grande reunião aconteceu no coração do 15-M, com a participação dos integrantes de diversas marchas e também a presença de estrangeiros, especialmente italianos, alemães, franceses, portugueses e duas garotas gregas, que tomaram o microfone para informar que a juventude de seu país continua acampada na Plaza Sintagma, em Atenas, apesar da forte repressão policial, que tem sido entrave à organização do movimento grego. A assembleia também contou com testemunhos emocionados de participantes da Marcha, que compartiram seu aprendizado durante os 29 dias de realização de assembleias e experimentação de uma nova forma de democracia, baseada no contato direto com as necessidades populares.
Para descontrair, houve espaço destinado a recital de poesias e apresentações musicais, incluindo uma dupla de Barcelona, que compôs uma canção inspirada na Marcha Popular. O refrão que diz “Somos indignados que protestam, fomos indignados de sofá” e “Vamos devagar porque vamos longe” converteu-se em hino de rebeldia, cantado e aplaudido de pé pelos presentes.
O encontro acabaria somente por volta da 1h00 do dia 24, com o convite para que os interessados em auxiliar na montagem de uma nova acampada, frente ao Museu do Prado, somassem-se aos integrantes das comissões do movimento. Eu que, de início, pensava em me abrigar sob alguma das tendas disponibilizadas dessa maneira, rendi-me ao cansaço e fui buscar um hostel barato onde pudesse ter o mínimo de paz para recuperar as forças do organismo e refletir sobre a complexidade do que havia passado durante esse inusitado dia. Enquanto caminhava, afastando-me da Puerta del Sol, pensei no quanto minha mente ainda está acomodada a certos confortos, que talvez já não façam a mínima diferença para quem tem levado a luta do 15-M às últimas consequencias, somando mais de dois meses de acampamento, com a previsão de ainda mais trabalho diante de outras mobilizações e novos alojamentos que já se planejam. Pensa-se, por exemplo, na realização de mais uma Marcha Popular em outubro, desta vez com destino a Montpellier, na França. E neste domingo uma grande manifestação acontecerá em Madrid, desde a estação Atocha até a Puerta del Sol, a partir das 18h30, para declarar o descontentamento popular com os efeitos do capitalismo internacional à queda da qualidade de vida da população.

Além disso, até pelo menos terça-feira, a acampada frente ao Museu do Prado continua, com atividades e discussões programadas para todos os dias. Dentre elas, amanhã (25/7), um Fórum Social do 15-M será realizado desde cedo até as 21h00, no Parque del Retiro, abrangendo debates sobre temas, como Política, Relações Internacionais, Meio Ambiente, Economia, Feminismo, dentre outros. Estarei acompanhando tudo, desta vez, desde a acampada, onde terei menos tranquilidade e infraetrutura para escrever, mas o ambiente me permitirá a busca pela libertação do comodismo, que já faz parte do cotidiano daqueles que já não são indignados de sofá, mas sim, revolucionários em tempo integral.
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